A cruz de cedro, romance paulista, época 1715

A cruz de cedro, romance paulista, época 1715

Descrição

A cruz de cedro, romance paulista, época 1715. Antonio Joaquim da Rosa. Editora Monteiro Lobato, São Paulo, 1924.

Transcrição

ANTONIO JOAQUIM DA ROSA

A CRUZ DE CEDRO

GRAPH. EDITORA MONTEIRO LOBATO

PRAÇA DA SÉ, 34 - SÃO PAULO - 1924

A CRUZ DE CEDRO

ANTÔNIO JOAQUIM DA ROSA

A Cruz de Cedro

ROMANCE PAULISTA

ÉPOCA - 1715

NOVA EDIÇÃO

Editora

Companhia Craphico - Editora Monteiro Lobato

Praça da Si, 34 — São Paulo

1924

Off. da Cia. Grapbico-Editora Monteiro Lobato — S. Paulo-l'J2»

Um extrangeiro, percorrendo a bella província de

S. Paulo, escreveu as impressões da sua viagem, que fo

ram publicadas em um jornal da época.

Em um dos períodos desse éscripto nos recordamos

de ter lido que o autor se impressionara vivamente por

•ter encontrado nas nossas estradas algumas cruzes, to

mando todas ellas como testemunho de assassinatos com-

mettidos nesses logares.

Quem tiver lido esse trecho, a que nos referimos, pen

sará que o Brasil é habitado por bárbaros vingativos,

como os corsos, sempre com a faca em punho ou com o

bacamarte engatilhado,; e que este solo -abençoado, que

serviu de berço ao nobre Amador Bueno da Ribeira, é-

mais fertilizado pelo sangue precioso de seus filhos, do

que pelos rios caudalosos que regam as suas entranhas ,e

pelas chuvas, ora tempestuosas, as mais das vezes bran

das e serenas, que humedecem a sua superfície.

Até certo ponto não cohdemnamos o autor com toda

a indignação, com toda a severidade que exige uma diffa-

mação tão affrontosa quão immerecida, cqntra a, qual

protestam altamente a nossa civilização, a nossa morali--

dade, os nossos costumes brandos, pacíficos e nobres.

Além do direito de adulterar, a que se têm arrogado

todos os extrangeíros que têm éscripto acerca da nossa

terra, podia esse autor ser illudido pelas impressões de

momento, por factos isolados, por informações inexa-

ctas.. .

Verdade é que uma ou oulra Cruz plantada á beira

das nossas estradas revela ao viajante que alli tombou

It WIOMO JoVOllM l>\ IIOSA

unia victima que seguia seu caminho, talvez ;i scismar

no anjo que deixara entre suspiros e lagrimas.

Verdade é que unia ou outra cruz convida o via

jante ehristão a elevar ao eco uma prece por aquellc

que alli começou a dormir o soimio do eterno esqueci-

mento, deixando as torturas do remorso para o scelerado

que o ousou roubar os raios da Divindade.

Mas a maior parte dessas cruzes lelli uma origem

verdadeiramente christã, origem ignorada pelo estran

geiro, que mal conhece nossos usos, nossos cosi nines.

Como se constróem pharoes para guiar o navegante,

talvez perdido na extensão dos mares e em noite pro-

cellosa, assim, desde as eras mais remotas, os Paulistas

plantam, cru/.es nos caminhos que se destacam das estra

das gentes para avisar ao caminhante "que, seguindo aquel-

la vereda, encontrará um tecto hospitaleiro em pequena

distancia.

Outras cruzes (ás vezes três em um logar) são collo-

cadas afim de servirem de ponto de reunião aos visi-

nhos, que alli se congregam no dia de Santa Cruz para

rezar e coroar de flores o símbolo da nossa redempção.

Km outros logares se encontram grupos de sete cru

zes collocatlas de distancia em distancia, onde se reú

nem os habitantes tio bairro nas sextas-feiras da qua

resma para correrem a \ ia sacra, memorando a paixão

da excelsa victima do Calvário.

Em tempos mais remotos, nesses tempos de fé mais

viva, collocava-se um pequeno cofre no tronco princi

pal das cruzes, e o christão que passava introduzia a

sua oblata pela abertura praticada na parte superior do

cofre.

O ladrão, que não hesitava commetter um attentado

contra a pessoa ou propriedade pjra estabelecer o equi

líbrio do communismo conforme as theorias de Fourier

e de Proudhon, passava defronte dessas cruzes e não

ousava violar o dinheiro sagrado que se eiu-rn ;i\ ;i nesses

cofres.

A CRUZ DE CEDRO 7

Na véspera de finados o zelador da cruz abria o

cofrezinho, e levava ao vigário todo o dinheiro que alli

se achava, para se dizerem missas por alma dos mortos.

Deduzidas, pois as cruzes que têm uma origem tão

nobre, poucas são, felizmente, aquellas' que deshonram a

humanidade.

II

O cedro secular das virgens florestas brasileiras toma

proporções gigantescas e pouco inferiores á peroba, quer

na sua circumferencia, quer na sua altura magestosa.

O cedro brasileiro tem a propriedade de brotar fa

cilmente, e, por isso, é a madeira mais commummente

preferida para cruzes.

Os ramos que brotam e crescem do tronco da cruz

formam em breve uma umbella silvestre, que a cobre

com sua verde folhagem, como que preservando-a dos

ardores do sol.

Nem a pittoresca estrada que atravessava como uma

longa serpente a pequena mas Íngreme, serra do Bathé

e que actualmente serve de còmmunicação entre a villa

de S. Roque e a freguezia d'Araçariguama, nem a ante

rior, que seguia pela rua de Santa Quiteria, era o cami

nho trilhado entre esses dous pontos, quando essa villa

fazia parte daquejla freguezia com o nome de Bairro de

Carembehy.

Nesse tempo a estrada se deslisava á direita e algUT

mas braças retirada da rua de Santa Quiteria, por uma

montanha hoje coberta de verde gramma, onde ainda

hoje se vêem os vestígios do seu antigo leito.

Pouco adiante do límpido Carembehy, nas fraldas

dessa montanha de que falamos e á beira da antiga es

trada abandonada quasi ha meio século, se erguia co

lossal e magestosa uma cruz de cedro cujos ramos es

pessos cobriam os seus braços como um docel de ver

dura.

«S ANTÔNIO .IOVOIIM HA IIOS V

Nos bellos dias de nossa infância, que tão rápidos

correram, uma secreta attração nos levava para junto

da cruz de cedro r ahi nos entrelinhamos com os nossos

irmãos sem nos lembrarmos siquer que a branda rclva

cobria como um tapete de verdura os mysterios tle vim

facto horrível perdido nas cem pregas do vestido tle

um século.

Muitas vezes, em nossa adolescência, quando o pas

sado era uma rosa em agraço, quando o presente se

adornava com o perfume do jasmim, quando a espe

rança e o futuro nos sorriam lisongeiros, quando o nosso

coração se abria ás primeiras impressões do amor, nos

sos passos se dirigiam ainda para a cruz de cedro, e

ahi passávamos horas inteiras engolfado em vago e de

licioso scismar.

Assentado sobre a relva nascente, a cabeça recos-

tada sobre o tronco da cruz e os olhos meio fechados,

viamos sumirem-se os últimos 'raios do astro do tlia por

trás dessa cadeia de montanhas que circunda a villa,

como uma muralha de verdura que- alli collocára a mão

da natureza.

Ouvíamos como um languido suspiro de amor o

melancholico sussurro do plácido Carembehy, que ser

penteava quasi aos nossos pés.

No perfume das flores do prado, que a briza nos

transmittia, sentíamos o encanto de um beijo ardente

colhido a furto nos lábios de rosa de cândida virgem

abrasada de amor.

No gorgeio dos lindos pássaros que esvoaçavam de

flor em flor ouvíamos os tímidos suspiros da bella aman

te que entrevíamos em nossos sonhos dourados.

Depois, lá, sobre as finas arêas do sereno Carem

behy, se desenhava uma visão de formas vagas e duvi

dosas.

Pouco e pouco suas formas indecisas se tornavam

mais distinetas, seus cabellos formados dos argenteos

fios da limpha crystallina tomavam a <ôr negra e lu-.

trosa da jaboticaba e cahiam longos e ondulosos sobre

A CRUZ DE CEDRO 9

as elegantes espaduas; seus olhos também negros e pe

netrantes como os da águia, ora se humedecianr de má

gica ternura, -ora desferiam relâmpagos de amor; suas

faces morenas, de um oval perfeito, radiavam de beíleza

seductora; nos lábios de cereja pairava um angélico sor

riso; um vestido de nuvens diaphanas e transparentes

mal occultava nas suas dobras voluptuosas os delicados

contornos de um corpinho de sylphide. . . seus pésinhos

de criança resvalavam a furto pelo tapete verdejante de

macia relva. . Mais próxima, ella se precipitava em

nossos braços, tremula e offegante. .

Sentíamos o palpitar vehemente do seu coração vir-

ginal que batia de encontro ao nosso peito.. um beijo

tremulo e ardente confundia as nossas almas em um

doce extasi e lá subia ao céu nas cândidas azas do anjo

da innocencia..

E hoje. . como o cego e melancholico bardo de

Selma, vacillando entre as ruínas do passado, nossos pés

resvalam de abysmo em abysmo; e, assentado á borda

das torrentes que se precipitam das montanhas envoltas

em um turbilhão de argenteos flocos e que lá vão des

lizar-se docemente na planura da campina ornada de flo

res; com a nossa alma oppressa de pesares e de angustias1,

pranteamos lagrimas de sangue, porque a tristeza do nos

so coração seccou e exhauriu a outra fonte de lagrimas,

4embora tantas vezes de joelhos e a face em terra as im

ploremos.

Um céu de bronze não nos coricede siquer essa con

solação melancholicá e nos faz sentir com o philosopho

christão — a illustre victima da fortaleza de Spielberg

— que a desgraça de não chorar é a maior nas grandes

dores.

III

Era uma dessas tardes de julho, tão bellas, tão me-

lancholicas e tão poéticas, como costumam ser nestas pla

gas abençoadas de Tibyrecá.

llt ANTÔNIO JOAQITM DA ROSA

Estávamos junto da cruz de cedro immerso em me

ditações doces e cheias de esperanças, quando iu< bu-

lha de passos do lado da villa, de S. Roque nos \ciu dis-

trahir.

Voltando os olhos ao longo da estrada, vimos a pe

quena distancia um velho apoiado em um tosco bordão:

sob seus passos vacillantes estavam as folhas seccas, cabi

das das arvores que orlavam o leito da estrada.

Era o indígena Juhybá-1'ssú, da tribu de Guayanaz,

que fora catechizado pelos jesuítas de Piratininga, em

cujo collegio foi baptizado com o nome de José Xavier

e onde serviu alguns annos, passando-se ao depois para

o de Araçariguama, onde residiu até que o braço de

ferro do marquez de Pombal — o grande ministro de

I). José I — exterminasse a companhia de Jesus; vindo,

finalmente, assentar a sua morada em S. Roque, para

morrer, dizia elle, entre as soberbas montanhas que o

viram nascer e sobre a relva que lhe serviu de berço.

O velho trazia debaixo tio braço o seu chapéo de

junco, e pelos movimentos dos seus lábios fácil era adivi

nhar-se que vinha rezando.

Apesar de carregar sobre os hombros o peso de um

século, conservava ainda com toda a pureza o esmalte

de duas ordens de dentes; sua cabeça era ornada de bas

tos cabellos negros e duros, apenas, mesclados de raros

fios de prata; seus olhos negros brilhavam com luz um

tanto amortecida no fundo de duas cavernas; suas faces

bronzeadas e macillentas eram cortadas por largos sul

cos abertos pelo férreo buril dos annos; as mãos requei-

madas pelo sol mortuario da velhice, já mirradas e con

traídas: as pernas outr'ora tão musculosas c flexíveis, es

tavam arqueadas pelo tempo destruidor.

Trajava ceroulas e camisa de algodão da terra, e um

jaleco de fustão azul com botões de aço.

Quando o velho fronteou a Cruz de Cedro, fez uma

inflexão profunda com a rabeca e se dispoz a continuar

o seu passeio.

A CRUZ DE CEDRO 11

m

— Boa tarde, mestre José, lhe dissemos nós.

O macrobio, que tinha vindo absorto, ou nas suas

orações, ou nos seus pensamentos, não tinha dado fé da

nossa presença; por isso, quando lhe dirigimos a palavra,

fazendo um gesto que indicava a viva impressão de que

se achava possuído, virou sobre os calcanhares com a vi-

vacidade de um menino, e então, reconhecendo-nos, disse

com voz que ainda trahia a sua emoção:

—- Ah! não tinha visto., também já pouco enxer

go... Boa tarde, sr. moço.

E dando alguns passos para deante, como quem não

estava disposto a conversar, parou de repente; e voltando-

se de novo para nós, disse:

— Vai se fazendo noite; peço-lhe que se retire.

— Porque, mestre José?

— Porque...

— Fale sem receio.

— Porque de noite um fastasma negro vem gemer

ao lado da Cruz de Cedro, derramar lagrimas sobre a

terra ensopada de sangue; e ai daquelle que horas mortas

se approxima deste logar tremendo, e tem a desgraça de

ouvir os gemidos do fantasma da Cruz!

— Que succede aos que ouvem esses gemidos sinis

tros? perguntámos com interesse.

— Ou morrem no mesmo instante, ou ficam loucos

para sempre, respondeu o velho^ abaixando a voz, como

que para não ser ouvida pelo invisível fantasma.

-— Estais excitando a minha curiosidade, mestre

José. Fazei o favor de dizer-me porque o fantasma negro

vem gemer alta noite ao lado desta Cruz? Â que se attri-

buem as desgraças que acabaes de referir? De quem é o

sangue que banhou esta terra tantas vezes calcada pelos

meus pés? Quaes são os mysterios da Cruz de Cedro?

— Deus me livre de contar essas cousas a estas ho

ras e neste logar!

— Então marcae outra hora para contar-me essa

historia.

1- \\ IIIMO • jovori vi DA nos v

O velho, depois de hesitar por alguns scmirlos,

disse :

— Amanhã bem cedo, si o st", moco me pronietter

de se retirar já.

— Pois bem: eu me retiro; mas não vos esqueeaes

que amanhã bem cedo nos encontraremos neste logar.

— Não me esquecerei.

— Boa noite, mestre Xavier.

— Deus Nosso Senhor lhe dê tis mesmas.

Voltámos para a nossa casa, e o mestre José Xavier

seguiu seu caminho em direcção opposta, voltando a ca

beça tle quando cm quando para certificar-se tio cumpri

mento tia nossa promessa.

IV

A febre tia curiosidade, que escaldava a nossa ima

ginação juvenil, afugentou o tloce som no para longe tio

nosso leito; e, durante uma longa noite de insomnia, fan

tasiámos mil vezes e por mil diversas formas a historia

tia Cruz tle Cetlro.

Quando os primeiros arrebóes tia manhã rompiam

o negro manto da noite com sua luz ainda frouxa e du

vidosa, nos levantámos tia cama e dirigimo-nos.para o

logar aprazado.

Logo que passámos a rua Municipal e que ganhámos

a estrada, uni clarão sinistro que se erguia do lado da

Cruz de Cedro attrahiu a nossa attenção. Accelerámos o

passo e bem depressa a vimos incendiada!

O sentimento, a indignação de que nos possuímos,

ao ver destruir-se aquelle religioso monumento, que na

sua linguagem muda e silenciosa falava das tradições do

passado, só podem ser comparadas aos que se apoderaram

tio coração sensível do desditoso VVerther quando en

controu derribadas as frondosas nogueiras a cuja sombra

estivera assentado ao lado da sua divina Curlota.

A CRUZ DE CEDRO 13

Com os braços cruzados e o coração em magoas con

templámos o incêndio dos restos da Cruz.

A chamma que crepitava do madeiro subia para o

céu como uma nuvem mystica.

Então vimos acercar-se de nós o indígena Juhybá-

Ussú.

— Fostes vós, dissemos-lhe em tom de amarga re-

prehensão, que irtcendiastes esta cruz?

— Sim, fui eu, respondeu elle com toda a fleugma.

— E porque commettestes tão grande sacrilégio?

— Porque a Cruz de Cedro devia desapparecer an

tes de ser manchada.

— E quem vai profanal-a?

— Eu.

— Como?

— Arrancando das trevas do passado uma historia

horrenda, que todo o mundo ignora.

— Pois bem, vamos a essa historia, dissemos nós,

vendo que o mal era irremediável e receiando que fi

cássemos privado delia se irritássemos o velho.

Juhybá-Ussú assentou-se em- um barranco da estra

da, defronte do brazeiro, e ahi referiu-nos a historia dessa

Cruz, de que hoje não resta o menor vestígio sinão na

memória daquelles que a viram.

Ser-nos-ia difficil mimosear o leitor com a lingua

gem do velho Xavier: apoderámo-nos dos factos e os va

mos reproduzir com as phrases toscas de que usamos.

O bispo missionário dr. Guilherme Pompêo de Al

meida, um dos mais béllos typos das nossas glorias passa

das, havia baixado ao túmulo a 7 de janeiro de 1873,

victima da ambição dos jesuítas; e nas mãos delles ha

viam passado as immensas riquezas desse Creso paulis

tano, de que Pedro Taques faz honrosa menção na sua

biographia dos paulistas illustres.

1-t VNTONIO IOAQ11M l>V HOS.\

O padre Raphael Machado, reitor tia comi' ';l l'e

Jesus no collegio de Piratininga da capitania de s- Paulo,

apressou-se a mandar vinte Jesuítas parti se ist-ilnk-ee-

rem no sumptuoso palácio que o dr. Guilherme havia

fundado na fazenda tle Aiaçariguama e que foi transfor

mado immetliatamente em collegio dessa ordem poderosa.

Em breve a santidade da Capella tia Conceição, que

o devoto dr. Guilherme edificára ao lado tio seu palácio,

foi profanada pelos filhos de Santo Ignacio tle Loyola.

A grande varanda desse nobre edifício, em que o dr.

Guilherme se reunia com seus numerosos amigos, foi con

vertida em sala de refeitório, onde a sobriedade era sa

crificada quotidianamente ao Deus das orgias e dos fes-

tins. As cem câmaras destinadas para os hospedes foram

transformadas em cellas, theatros nefandos de scenas es

candalosas.

Todavia, sem inquinar-se da corrupção dos seus in

dignos irmãos, vivia em uma dessas cellas um jesuíta

illustre, dando os mais edificantes exemplos de virtudes,

supportando com heróica resolução as mais austeras pe

nitencias no ocaso de uma vida votada ao martyrio. Era

o Paulista septuagenário, o venerando padre Belchior de

Pontes, tligno suecessor do apóstolo do novo mundo, o

grande Anchieta.

Na manhã de um tios primeiros dias tle agosto de

171."» chegou á porta da egreja do collegio de Araçarigua-

ma um moço que parecia ter dezoito annos, o qual, ven

do levantar-se do confessionário uma mulher já etlosa,

entrou precipitatlamente e foi ajoelhar-se aos pés do pa-

(ln Gaspar do Santo Sepulcro, que alli se achava.

— Fazei o signal da cruz e rezae o acto de contri-

cçáo, disse o confessor ao penitente, que acabava de

ajoelhar-se.

— Ah! meu padre, estou tão perturbado que nem

mesmo sei fazer o signal da cruz! respondeu Augusto de

Lara com dolorosa emoção.

A CRUZ DE CEDRO 15

A estas palavras o padre Gaspar, que come logo se

ha de ver, representa um papel assás importante nesta

historia, fitou no mancebo um olhar coruscante como o

raio. Com esse olhar d'aguia o jesuíta devassou com a in-

telligencia de um Lavater os segredos desse peito em

combustão. Nem era de mister o olhar penetrante de um

jesuíta acostumado a ler nos arcanos da alma, para adivi

nhar que ardia um vesuvio no peito do mancebo. Seu

vestuário negligente, a desordem dos seus cabellos ne

gros, o brilho vulcânico dos seus olhos também1 negros,

macerados por vigílias e penosos cuidados, o rubor que

abrazava suas faces morenas, o tremor do seus lábios e

dos músculos dessa physionomia expressiva e bella, cujos

traços estavam alterados por violenta paixão, tudo isso

revelava o tumulto das paixões que se grupavam no pei

to afflicto do mísero mancebo.

O padre Gaspar, depois do seu rápido exame, diri

giu-se ao joven Lara com voz branda e insinuante:

— Meu filho! disse elle, vejo com pesar que as pai

xões mundanas vos desvairam e que, no estado de agi

tação em que vos achaes, mal podereis aproveitar os be

néficos fruetos da confissão.

— Sim, meu padre, tendes razão, porque ajoelhei-me

aos vossos pés sem saber mesmo o que fazia: é que o

meu coração transborda de affectos, e o desespero me

suffoca e perturba.

— Bem triste é a vossa posição, meu filho; mas nos

recursos da experiência, na dedicação de um amigo, nos

conselhos da sabedoria podeis encontrar por ventura um

remédio inesperado aos vossos males.

— E quem é que me ha dar esses conselhos, se

não tenho sobre a terra nem siquer um amigo?

— Eu, meu filho, que sou o amigo dos desgraçados,

se depositardes em mim toda a vossa confiança, se me

abrirdes o vosso coração, como a um amigo sincero e

dedicado.

— Pois bem, meu padre, ouvi-me,

10 ANTÔNIO .loxyilM DA ROSA

— Não. meu filho, este logar sagrado nào r talvez

o mais próprio para as revelações que tendes a í.i/.er me.

Eu vou celebrar o santo sacrifício da missa: ouvi-a com

toda d devoção; implorae o auxilio da Virgem Santíssima

para que se compadeça das tributações tia vossa alma.

Depois disto acompanhae-me á minha cella, e ahi conver

saremos largamente.

O jesuíta levantou-se sem esperar pela resposta; diri

giu-se a sacristia, paramentou-se e veiu dizer missa no

altar mór.

Augusto de Lara ficou de joelhos no mesmo logar

em que se achava e ahi permaneceu durante a missa, im-

movel como uma estatua.

Terminada a missa, o padre Gaspar voltou á sacris-

tía, tlespiu a casula e a alva e, vindo para junto do pobre

moço, tocou-lhe no hombro com a ponta dos dedos, di

zendo-lhe:

— Acompanhae-me.

Augusto estremeceu ao contacto, abriu os olhos cora

espanto e, fitando-os nos do patlre, exclamou como que

acordando de profundo somno:

— Ah ! que me queres ?

— Acompanhae-me, rqpetiu o jesuíta, extendendo-

lhe a mão e ajudando-o a levantar-se.

Ambos saturam pela porta principal da egreja, en

traram pela do collegio, subiram uma extensa e larga es-

cuda angulosa, atravessaram diversas salas e chegaram

finalmente i uma cella, onde se assentaram em cadeiras

de sola preta junto tle uma mesa de jacarandá.

O patlre Gaspar deu um assobio, e appareceu imme-

diatamente um menino de doze annos, que era um dos

cathechunienos do collegio.

— Que ordena vossa reverendissima? perguntou o

intelligente menino*, inclinando-se com respeito.

— Vae dizer ao reverendo reitor que me acho um

pouco indisposto e que peço licença para almoçar na

minha cella.

0 menino retirou-se e, voltando dahi a pou>o, disse:

A CRUZ DE CEDRO % 17

— O reverendo, reitor concedeu a licepça que vossa

reverendissima. mandou pedir-lhe.

— Pois bem: agora vae rogar ao padre dispenseiro

que mande um almoço simpliciter para dous.

Pouco depois foi servido sobre a mesa um excellente

almoço com dous talheres.

O simpliciter em artigos culinários era um termo de

convenção na giria dos santos padres da companhia de

Jesus: exprimia sempre no sentido lato o termo opposto

á simplicidade.

Augusto de Lara apenas tomou duas colheres de caldo

de frango e um gole desse precioso vinho que o dr. Gui

lherme fabricava na sua fazenda de Araçariguama e do

qual ainda restavam algumas garrafas na adega do col

legio, que o gorducho e rubicundo padre dispenseiro de

quando em quando cedia aos amigos Íntimos, em alguns

bons momentos, mas não sem grande sentimento da sua

garganta e do seu estômago.

Como uma antithese viva collocada fria e inexora

velmente defronte do moço, cujo estômago não podia sup-

portar os alimentos, porque o seu peito estava repleto

de maguas, o padre Gaspar comeu com a voracidade de

um lobo. A gula entre os jesuítas era mais uma virtude

do que um peccado mortal.

Terminado o almoço, durante o qual profundo si

lencio reinou entre os dois convivas, o jesuíta, levando

aos finos beiços um guardanapo de linho, disse:

— Agora sou todo ouvidos para escutar-vos, meu

pobre amigo.

Augusto de Lara, erguendo a fronte abatida, que tinha

apoiada entre as duas mãos, disse com accento doloroso:

— Meu padre! o tropel de angustias que me enche

o peito suffoca em meus lábios trêmulos a voz fraca e

balbuciante. Desejava encontrar um amigo em cujo peito

entornasse a minha alma; mas, chegado esse momento,

o coração hesita, e eu vejo no fundo de um quadro negro

a inutilidade dos vossos conselhos. Ha gerações votadas

ao infortúnio. O destino do pae é quasi sempre o destino

18 ANloNlO JOAQUIM HA ltOS \

do filho. Pesa sobre a minha cabeça a mão de feiro da

desgraça, e a minha sorte se ha de cumprir! Paia que,

pois. revelar-vos os mysterios de um segredo que é a

minha vida e a minha morte e que bem depressa *ein ^l%

baixar commigo á sepultura?

— Tão joven e tão descrido! exclamou o padre Gas

par; quem vos matou no coração innocente a fé e a es

perança, essas duas virtudes theologaes, essas duas filhas

mimosas do céu, que sustentam o desgraçado que vai

naufragar no mar tempestuoso da vida; que fazem a con

solação do velho que vacilla entre uma existência já mur

cha e a campa gelada que se ergue para bradar-lhe: "Pe

regrino! a tua missão está finda sobre a terra?!" Quem

substituiu a noite á manhã de vossos dias? Quem matou

as crenças que deviam baixar comvosco á sepultura?

— A desgraça, meu patlre! respondeu o mancebo,

comprimindo entre as mãos convulsas a cabeça afo-

gueada.

— A desgraça! exclamou o jesuíta com accento vi

brante; moço inexperto e fraco! a desgraça não vos revela

a existência de um Deus? A desgraça é o cadinho em que

se depuram as almas que o Filho do Eterno mais ama.

Quis bene amai bene castigai. Lembrae-vos do que soffreu

Job, e na su.i santa resignação, no exemplo grandioso das

suas virtudes, buscae a força, a energia que vos fallece.

Não sabeis que a desesperação é um peccado que brada

aos céus, cujas portas se fecham para sempre aos míseros

que desesperam? Não sabeis que é indigno da felicidade

o coração que não tem força para soffrer a desgraça? Não

sabeis que Deus é infinitamente bom e misericordioso,

ainda mesmo desferindo os raios de sua cólera celeste?

— Ah! meu padre! balbuciou o joven Lara, meio

hesitando, mas já meio convicto pela argumentação vi

gorosa do jesuíta.

— Hesitaes ainda? Que! Não pôde destruir a causa

do vosso soffrimento, tornar-vos feliz aquelle que com

uma palavra poderosa creou os céus e a terra; que poz

diques á impetuosidade dos mares; que delineou o rurso

A CRUZ DE CEDRO 19

dos astros? Aquelle que abriu as águas do Mar Vermelho

para dar passagem aos Hebreus e que por espaço de qua

renta annos os sustentou nos desertos de Sin com o man-

ná que chovia do céu? Aquelle que deu á vara de Moysés

o poder de fazer brotar da pedra de Horeb um arroio

crystalino para saciar a sede do seu povo? Aquelle que

á voz de Josué fez parar o sol sobre Gabaon e a lua sobre

o valle d'Avalon? Aquelle que mandou os corvos sustenta

rem ao propheta Elias, junto ao torrente de Carith?

Aquelle que livrou ao propheta Daniel do lago dos leões?

Aquelle que salvou a Jonas do ventre de um peixe; que

deu vista ao cego Jerico e que na aldêa de Bethania. fez

resuscitar a Lázaro?

— Perdoae, meu padre, as minhas hesitações, nas

cidas da agitação em que se acha a minha alnia, não por

que de modo algum deixe de acreditar nos milagres da

Escriptura sagrada. Accedendo, pois, aos vossos Üesejos,

vou abrir-vos o meu coração, traçando o quadro melan-

cholico das minhas desgraças.

— Não receies importunar-me, por mais longa que

seja a narração que tendes de fazer-me; e não omittàes

quaesquer circumstancias da vossa- vida, por mais indif-

ferentes que vos pareçam e ainda que não tenham a me

nor relação com os infortúnios que ora pesam sobre vós.

— Então quereis a historia de todo o meu passado?

— Sim, meu filho, eu a peço, mesmo afim de prepa

rar o vosso espirito para chegar mais calmo aos factos

que se prendem á actualidade.

Augusto de Lara fez um gesto de assentimento.

VI

O moço concentrou-se por alguns instantes e, depois,

dando profundo suspiro, disse com voz mais segura e

animada, porém algumas vezes tremula de emoção.

— Neste edifício passei os mais bellos dias da minha

infância; aqui se deslisam os innocentes gosos de minha

-•' ANTÔNIO JOVOIIM D\ IIOSA

juventude, aqui se desabrochou e se desenvolvi n a mi

nha acanhada intelligencia; aqui devia eu. pois, expandir

os soffrimentos do meu coração. . .

— Tanto mais quanto tendes o peito tle um amigo

para os confiardes, observou o jesuíta.

Augusto continuou depois de breve pausa:

— No pittoresco valle tio Carembehy existe uma

grande casa térrea, tendo na frente um extenso vestibulo

com uma sala espaçosa em cada extremidade. Nas pare

des do vestibulo estão desenhados a pincel e em grandes

caracteres os martyrios da mais sublime das epopéas —

a Paixão de Christo. No interior da casa ha uni vasto

salão, tio qual se destacam para os lados diversos aposen

tos. A mobília que decora o alpendre e as salas consiste

em escabellos e mesas tle canella preta. A architectura

dessa casa é baixa, conforme a usança tio século passado.

Do parapeito tio vestibulo ouve-se o murmúrio do Carem

behy, que serpeja na extremidade tio terreiro, tão langui1-

tio como o gemer da rola, tão suave como o beijo da brisa,

tão melancholico como uma endeixa de amor e de sau

dade perdida na amplidão dos desertos. AÍém de muitos

escravos e indígenas, moram nessa casa o capitão André

de Góes e sua filha... Julia...

Ao pronunciar este nome com voz tremula, não só

as IT.LIS do pudor incendiaram as pallidas faces do man

cebo. como também estremeceu imperceptivelmente o pa

dre Gaspar, que immediatamente se resserenou.

— O capitão André de Góes, continuou Augusto, é

um velho de quarenta e cinco a cincoenta annos, alto,

magro, moreno, de compleição robusta, tle feições nobres,

francas e sympathicas.

Augusto calou-se com visível embaraço e como que

não sabendo o que tinha de dizer.

— Agora farei o retrato da filha, disse o jesuíta, que

comprehendeu a hesitação do narrador.

— Julia. . disse o mancebo com embaraço, Julia

com seus dezoito annos, talhe esbelto e elegante, > intura

A CRUZ DE CEDRO 21

delicada, pés mimosos, alva como neve, olhos azues e ca-

bellos louros, é uma dessas bellezas deslumbrantes que

passam velozes como o raio através das sombras fugitivas

de um sonho de poeta, deixando a sua alma inebriada des

sa ambrosia, desse ambiente que se impregna aos vesti

dos virginaes de um anjo de belleza seductora e mys-

teriosa.

Augusto se interrompeu segunda Vez, como exhausto

de cansaço pelo esforço supremo deste esboço.

— Em. verdade é admirável o retrato que acabaes de

fazer, observou o frade com as nasaes entumecidas e JS

olhos chammejantes.

— Oh, meu padre! exclamou o joven amante com

enthusiasmo, se a visseis no crepúsculo de uma linda tar

de, vestida de branco e reclinada sobre o parapeito do

vestibulo, a face de anjo apoiada .sobre a mimosa dextra,

e seus olhos grandes e languidos fitos com inexprimivel

ternura no céu tão azul como elles, contemplando talvez

em um extasi indefinido através das nuvens, essa mãe

carinhosa e terna que se desprendera dos elos da vida

para ir esperar sua querida filha entre os cherubins tão

puros como ella... Se então visseis uma lagrima em seu

rosto como uma gotta do orvalho da manhã na assetinada

folha de casta cecem. .. Ou se a visseis triste como uma

saudade, a mão sobre o peito, como para comprimir-lhe

as pulsações, e immersa em vago e mysterioso scismar!. .

— E vós a tendes visto? perguntou o jesuíta com a

mesma exaltação com que o mancebo se exprimia, posto

não com a mesma ingenuidade.

— Sim, meu padre! tenho contemplado extatico essa

obra prima do Eterno, a magestade do seu porte e seus

movimentos encantadores; tenho sorvido torrentes de

amor nos seus bellos olhos; tenho adivinhado as palpi-

tações do seu coração, tenho emfim respirado o àr que

ella respira, ouvido a sua voz divina!

— Sois bem feliz, meu filho!

-— Bem feliz e bem desgraçado!

-!- ANTÔNIO .loVolIM D\ IIOSA

— Como isso?

Dez me/es depois tio casamento tios meus proge-

nitores, meu pae morreu subitamente. Minha mãe, fulmi

nada por esse golpe terrível, abandonou-se ao excesso do

mais doloroso sentimento e, debruçada sobre o corpo ain

da tepido tio joven esposo, tpie ella amava com toda a

ternura tio seu coração, sentiu os primeiros pruridos do

parto e dahi a alguns instantes deu á luz um menino pre

maturamente. Nesse momento ouviram-se uni suspiro e

um vagido. O suspiro partiu tios lábios arroxados e con-

vulsos da infeliz viuva, que acabava tle ser mãe, e unnun-

ciava que sua alma pura subira pira o céu, onde fora

reunir-se á tio seu esposo querido. O vagido, que apenas

exprimia a villa, sahira tios lábios tle um recém-nascido,

que ia começar a sua peregrinação tle dores no valle tios

martyrios. l'ssa criança era eu, meu padre que ao cahir

na terra ensopada de lagrimas, não tive um cora

ção tle mãe para acalentar-me junto do seu peito, não tive.

um pae para ri ceber-me nos seus braços! Orpham, aban

donado á Providencia, eis ahi qual foi a aurora da minha

vida! A desgraça deve ser a partilha daquelle que nasceu

entre as agonias e os horrores da morte!

— Pobre orpham! disse o padre Gaspar, fingindo

enxugar uma lagrima.

— tina velha indígena, que morava em casa de meu

pae, correu tlando espantosos gritos, e foi annunciar estes

lamentáveis successos ao nosso vizinho mais próximo.

Esse vizinho veiu pressuroso; e, cheio de surpresa e de

dôr, viu ileante tios olhos este quadro negro, esta scena

horrorosa: — um menino recém-nascido soluçando, cho

rando e a Gritar de frio entre os dous cadáveres palpi

tantes! Ksse bom homem deu as ordens necessárias para

prevenir o tumulto e a confusão próprias de tão deplorá

veis circumstapcias; tratou do enterro desse par infeliz

e levou-me para a sua casa. Esse homem philanthropo e

caridoso era o capitão André de Góes.

A CRUZ DE CEDRO 23

— Quem se não compadeceria, atalhou o padre.

— Pelo mesmo tempo teve o capitão André uma fi-

lhinha, á qual poz nome de Julia. Amamentou-nos por

muitas vezes o mesmo leite, embalou-nos o mesmo berço,

e juntos crescemos como dous arbustos, cujas raizes se

tocam, cujos ramos se apoiam e se estrelaçam; que vice

jam com o mesmo orvalho, com o mesmo sorriso do sol,

com o mesmo amor. Trocávamos o doce nome de irmão;

estávamos sempre um ao lado do outro; juntos corríamos

pelo valle como dous tenros cordeirinhos; juntos vagá

vamos pelas margens do rio ameno;.ás xezes absortos em

pensamentos vagos e deliciosos. Depois desses brincos

innocentes lá iamos sentar-nos sobre a relva mimosa de

baixo do gigantesco e frondoso cedro de Carembehy. Alli

muitas vezes eu adormecia com a cabeça reclinada sobre

o seu peito. Outras vezes era ella que dormitava no meu

collo. Entre o perfume das flores e a candura dos sorrisos

da innocencia, chegámos á edade de sete annos.

— E queixastes-vos da dureza da sorte! atalhou o

padre Gaspar.

— Esperae! disse o mancebo. Em uma bella manhã

passeávamos pelo quintal, e chegando a um pé de jasmin,

apanhei algumas flores e colloquei-ks entre os cabellos de

Julia em fôrma de grinalda. Satisfeito da minha própria

obra, contemplando com enthusiasmo o bello effeito que

fazia essa grinalda argentina entre os fios d'ouro que o

brando sopro do zephyro agitava, exclamei com a vjva-

cidade de uma criança:

— Como és linda, minha irmã!'

— Deveras? perguntou ella, sorrindo.

— Sim: tu és a mais linda de todas as meninas.

— Pois fico bem contente de me achares bonita.

Dizei-me uma cousa, Augusto.

— Qual é?

— Os irmãos podem se casar?

— Podem.

Então porque não nos casamos?

21 ANTÔNIO JOAQUIM 1> \ UoNA

— Pois casenio-nos.

Então as nossas mãos se tocaram, nossos braços se

entrelaçaram, nossos peitos se uniram anhelantes. . .

— Augusto! Augusto! bradou uma voz um pouco dis

tante.

Ao ouvir essa voz. nós estremecemos como esses ten

ros e débeis caniços que se debruçam gemendo nas mar

gens dos lagos.

— E' papae que te chama, disse Julia sobresaltada,

apcrtando-me ainda mais contra o seu peito.

— Sinto um#encanto inexprimivel ouvindo a narra

ção ingênua desse amor tle duas crianças, tão puro como

a innocencia, inspirado pela natureza e approvado pelo

céu. tlisse o padre Gaspar, procurando insinuar-se cada

vez mais no espirito do mancebo.

— Vós me acoroçoaes com palavras animadoras. O

céu vos escute!

— Elle ha de escutar-vos.

VII

Continuou Augusto a sua narração interrompida.

— Dirigintlo-nos para casa, encontrámos o capitão

André, o qual ortlenou que me apromptasse para acom-

panhal-o á fazenda de Araçariguama. Julia e eu pedimos

com instância, com rogos e com lagrimas que não nos

separassem e que, ou deixasse tle ir, ou ella fosse com

ungo. Mas a voz imperiosa do capitão André poz termo

a essa scena dolorosa: agarraram-me, puzeram-me á força

a cavallo, e parti com o capitão André, dando gritos de

tlesesperação.

Julia ficou soluçando, chorando e estendendo para

mim os seus bracinhos como quem protestava contra a

violência e tyrannia de seu pae.

Chegado á fazenda de Araçariguama, fui apresen

tado a um homem vestido com esmero e elegância, de

A CRUZ DE CEDRO 25

porte nobre e magestoso, olhos negros, semblante mo

reno, insinuante e expressivo, no qual todavia resaltavam

alguns traços de uma profunda melancholia, que elle

procurava esconder nas dobras dessa d^stincta polidez

que o fazia tão notável e que desafiou a admiração do

reverendo Manuel de Sá, patriarcha da Ethiopia, que veiu

da índia só para visitar e conhecer esse paulista illustre,

cujo nome a fama havia levado além dos mares. Esse.

homem era o dr. Guilherme Pompeu de Almeida.

Quando o capitão André teve de retirar-se, agarrei-

me ás suas pernas e fiz um espalhafato capaz de abrandar

as pedras; mas os meus rogos, o meu pranto e os meus

soluços não o demoveram do bárbaro propósito de sepa

rar-me da minha querida maninha. Elle partiu.

Com outros muitos meninos que moravam na fazenda

de Araçariguama, comecei no dia seguinte a aprender as

primeiras letras. O padre Hyeronimo de Moura, que es

tudou e tomou ordens sacras no Rio de Janeiro a expen-

sas do dr. Guilherme, era o professor da escola, a qual

era destinada para os engeitados, os meninos indigentes,

os orphãos desvalidos, os filhos dos indigenas e de alguns

amigos do dr. Guilherme, que fazia á sua custa toda a

despeza dos collegiaes.

De quando em quando o capitão André vinha ver-me

e informar-se da minha conducta. Eu corria ao seu en

contro e pedia-lhe novas da minha interessante maninha,

cuja lembrança me acompanhava por toda a parte.

Minha constante applicação ao estudo, minha mori-

geração attrahiram as sympathias do dr. Guilherme, e,

concluídos os estudos primários, elle mesmo começou

a leccionar-me nos secundários. Ensinou-me as línguas

latina, espanhola e franceza, de que elle tinha perfeito

conhecimento; abriu a minha intelligencia os ricos the-

souros da philosophia e franqueou-me os seus livros, com

os quaes passei horas inteiras engolfado na leitura dos

bons autores que enriqueciam as estantes da melhor bi-

bliotheca desta capitania.

-ti VNIONIO JOAQIIM l>\ IIOSV

Com o correr dos annos, preoeeupado com a leitura

dos meus eslutlos, foi pouco a pouco arrefecendo a lem

brança da interessante companheira da minha infância,

que só de quando em quando me visitava nos meus sonhos

com as formas vagas de um passado remoto, que já pão

tinha grande poder para fazer estremecer o meu coração.

Demais, as visitas tio capitão André foram-se tornando

menos freqüentes, e finalmente, nessas raras oceasiões

em que nos encontrávamos, já só por costume lhe per

guntava eu pela minha irmã. '

Tendo concluído os meus estudos, o dr. Guilherme

resolveu niandar-me com um reforço de gente e armas ás

ricas minas Cataquás, onde se achava o seu sócio o capi

tão Paulo tle Barros Silva.

Ah! exclamou o padre Gaspar, e fostes reunir-vos

a esse homem ambicioso, que, não contente de haver

accumulado grandes riquezas nas minas tle Cataquás á

custa do dr. Guilherme, ousou querer manchar a reputa

ção illibada tio nosso veneravel protector e amigo, pre

tendendo arrancar-nos o rico espolio que elle deixou á

nossa pobre ordem como futil e inveridico pretexto de

ser genro tio illmo. bispo dr. Guilherme, quando é geral

mente sabido que sua illustrissiina nunca teve filhos, e

falleceu com santo perfume de castidade, como attesta-

rani os meus reverendos irmãos, que o visitaram depois

de morto?

— Não sei si o capitão Paulo tinha direito a essa

herança, mas o que sei é que, apesar da muito respeitável

opinião dos reverendos jesuítas, é elle casado com d. Ignez

tle Lima, que se criou em casa do capitão-mór Rodrigo

Bicudo Chassim, e que o próprio dr. Guilherme reconhe

cia como filha...

— Calai-vos! nem mais uma palavra a este respeito!

interrompeu o jesuíta com vivacidade. Desconhecer os

direitos inconcusos que a santa ordem de Jesus tinha e

tem sobre a herança do dr. Guilherme é fazer uma grave

injuria ao caracter recto e justiceiro do juiz dos resíduos,

A CRUZ DE CEDRO 27

o sábio dr. André Baruil, que.nos manteve na posse dessa

herança; é commetter um peccado que brada aos céos,

contra o qual somos obrigados a fulminar as mais severas

penas de excommunhão. Guardai-vos, pois, de manifestar

tão criminosa opinião em presença de qualquer outra

pessoa e reatae o fio da vossa historia.

Augusto de Lara abaixou a cabeça, não tanto em

signal de obediência á recommendação do jesuíta, como

para disfarçar um sorriso imperceptível que lhe sulcou

os lábios desdenhosos; e, alçando a cabeça, depois de

um instante, continuou:

— Emquanto se faziam os preparativos para a minha

viagem ás minas de Cataquás, chegou a esta fazenda o

reverendo padre mestre Athanasio do Coração de Jesus. .

— Um dos mais brilhantes pharóes de sabedoria, o

Salomão da companhia de Jesus, que contava tantos ca-

bellos brancos quantas eram as suas virtudes evangélicas!

atalhou o padre Gaspar com enthusiasmo.

— Bem o sei! respondeu o mancebo, dando á sua

voz um accento particular. O padre Athanasio se apre

sentou com duas cartas, uma do illmo. bispo do Rio de

Janeiro, d. Francisco de S. Hyeronimo, e outra do reitor

dos jesuítas de S. Paulo, o reverendo Raphael Machado,

que elevavam as suas eminentes virtudes á altura da san

tidade, j.

No dia que chegou teve uma larga conferência com

o dr. Guilherme, a%quem ouviu de confissão no seguinte.

Três dias demorou-se elle nesta fazenda, durante os quaes

o dr. Guilherme o surprehendeu muitas vezes no seu apo

sento, de joelhos e resando com fervorosa devoção.

— Já vedes que elle era a própria virtude, disse «o

padre Gaspar com desvanecimento.

— Era mais que a própria virtude, respondeu Au

gusto, era a santidade mesma! Jejuou a pão e água nesses

três dias, e entregou-se ás mais austeras penitencias, como

era seu costume, segundo dizia e mostrava. Assentava-se

L'S VNTONIO JOAQUIM DA ROS V

a opulenta mesa tio dr. Guilherme para fazer desejos, mas

não os satisfazia.

— Que santo homem, exclamou o jesuíta.

— Verdade é. porém, disse Augusto de Lara com

malignidade, que emquanto elle se entretinha nas suas

conferências com o dr. Guilherme, um menino engeitado

que aqui morava, e que tinha o nome do nosso iIlustre

protector, teve a curiosidade de ir ao aposento tio reve

rendo padre mestre e examinou a sua saccola.

— E que achou? perguntou o jesuíta,, franzindo o

sobr'olho.

— Ini pedaço de queijo flamengo, pães, grossas miras

de presunto, alguns paios e uma borracha de vinho.

- Isso era para dar de esmola aos pobres que en

contrasse na sua viagem e tpte tivessem fome e sede.

Assim o creio; mas o malicioso menino ousou

ainda affirmar que em outra oceasiáo, espiando pela greta

.da fechadura, viu o reverendo patlre mestre devorando

uma naca de presunto com pão, e depois levar á bocea

o gargalo da borracha ..

Está no inferno esse menino calumniador! bra

dou o jesuíta.

— Pôde ser que o menino se enganasse, e que o

padre mestre Athanasio, movesse os queixos como quem

comia, mas sem comer, e que fingisse beber o vinho, mas

sem bebel-o: tudo para fazer maior penitencia.

— Continue, disse o padre Gaspar, mordendo os

beiços.

— Ao terceiro tlia o patlre mestre recebeu tio dr.

Guilherme ."»()') oitavas de ouro para dizer missas por sua

tençáo, fez oração na egreja de Nossa Senhora da Con

ceição e partiu, levando ao hombro i sua saccola, menos

pesada, menos bojuda.

— E' que o menino Guilherme furtou dos pobres o

que ella continha para elles, e o padre-mestre Coração

de Jesus calou-se por sua modéstia, por sua virtude.

— E' provável que assim fosse.

A CRUZ DE CÉpBO 29

Desde a partida do venerável -padre Athanasio no

tou-se que o dr. Guilherme se entregou a uma tristeza pro

funda e fez uma inversão completa nos seus usos, nos

seus hábitos. Mandou soltar ao campo os vinte fogosos

ginetes que conservava nas estrib.arias; distribuiu por

alguns amigos os galgos descendentes do casal'que trouxe

da Bahia e que era da. raça mais pura do Cabo da Boa-

Esperança; substituiu a sumptuosidade da sua mesa pela

frugalidade e' simplicidade; não sahia nem para passear,

nem para caçar; não recebia visitas; substituiu os seus

vestidos de seda por uma roupa de grossa calamania;

mandou sobr'estar ôs preparativos para a minha viagem

ás minas de Cataquás; passava dias e noites na bibliothe-

ca, rezando o seu breviario, ou lendo o Mestre da vida ou

o Fios Sanctjorum.

— Eis ahi, disse o padre Gaspar, os benéficos resul

tados das conferências com o padre-mestre Athanasio.

O dr. Guilherme ouviu as palavras do servo do senhor e

deixou todas as suas affeições mundanas para se entregar

a Deus.

é — Assim parece. Oito dias depois da partida do

padre-mestre voltou elle com a competente saccola.

— Para dar a comer aos pobres, observou o padre

Gaspar, que não podia deixar passar despercebida qual

quer insinuação contra a frugalidade do seu virtuoso ir

mão, que, mais sábio do que Pithagoras, só comia pão

e só bebia água.

— Mas, de certo, não encontrou no seu trajecto os

pobres famintos, porque a saccola ainda não tinha sof-

frido o desfalque da pesada carga que o astuto Esopo

carregou sobre os hombros.

O jesuita, mordendo de novo os beiços com despei

to, disse:

— Que houve depois da chegada do padre mestre?

— Seguiram-se as conferências com o dr. Guilherme,

a confissão geral deste, as penitencias e os jejuns de

pão e água do padre-mestre e, finalmente, a sua retira-

30 ANTÔNIO JOAQUIM DA HOSA

da, deixando o pobre dr. Guilherme mais misanlliropo

ainda e mais acabrunh.ido de tristeza.

— Dizei antes, mais IOIILU da terra e mais próximo

do céu.

— Na quarta ou "quinta visita periódica que o reve

rendo Coração tle Jesus fez ao dr. Guilherme. dci\ou-o

prostado de cama; isto é, mais longe da terra e mais pró

ximo do céu, conforme a bella expressão de vossa reve

rencia.

— Vamos adeante, disse o jesuíta, picado pela iro

nia do mancebo.

— Desta vez o padre-mestre não voltou para S. Pau

lo, mas dirigiu-se a toda a brida para Sorocaba afim de

trazer o cirurgião-mór João Saraiva para acompanhar

o dr. Guilherme, a quem o padre mestre havia resolvido

a seguir para o collegio dos jesuítas de S. Paulo, afim

ile ser tratado alli da grave enfermidade de que se acha

va acommeltido.

Nesse mesmo dia os incommotlos do dr. Guilherme

tomaram uni caracter assustador; e elle, chamando-me

ao seu aposento, ordenou-me que o transportasse imrhe-

tliatamente para S. Paulo. Pouco depois fil-o entrar em

uma liteira e acompanhei-o até a Parnahyba, onde fize

mos pouso. O tlr. Guilherme sentiu-se tão extenuado de

forcas que resolveu descançar alli um ou dois dias.

VIII

A noticia da enfermidade do dr. Guilherme se havia

espalhado em S. Paulo com rapidez electrica. No dia

seguinte, ás 9 horas da manhã, chegou o reitor dos je

suítas, o padre Raphael Machado, e foi introduzido na

câmara do enfermo. Cinco minutos depois chegou tam

bém o padre mestre frei Luiz dos Anjos, guardião de'S.

Francisco, que, com egual sòffreguidáo, se introduziu na

camar;t do dr. Guilherme. A's 10 horas chegarai ,,,u

A CRUZ, DE CEDRO 31

differença de minutos, o prior do Carmo, frei Francisco

Paes da. Purificação, e o padre-mestre pregador, geral e

presidente do convento de S. Bento, frei Joseph de Jesus,

que foram pressurosos reunir-se aos outros dous reve

rendos.

Parece que as quatro potências ali reunidas se es

torvavam mutuamente, porque nos seus olhares scintil-

lantes se lia com facilidade o desejo que tinha cada um

de ficar só, sem duvida para collocar o illustre enfermo

mais longe dá terra e mais próximo do céu.

-— Prosegui; mas basta que relateis os factos des

carnados e sem commentarios, disse o padre Gaspar,

mordendo de novo ós beiços.

— Sim, reverendo.

A's 10 V-i horas chegaram o padre-mestré Athanasio

e o cirurgião-mór Saraiva. O padre-mestre penetrou sem

cerimonia, como conhecido velho, no aposento do en

fermo. O reverendo recém-chegado trocou um olhar

significativo com o reitor dos jesuítas. O guardião de

S. Francisco, o prior s do Carmo e o presidente de S.

Bento também trocaram um olhar que dizia •>..

— Que dizia?..

— Vossa reverencia já me observou que queria ou

vir os factos descarnados.

— Sim, mas referi sempre o que diziam esses olha

res.

— Diziam: tudo está perdido!

— Sois muito malicioso, mancebo!

— Foi vossa reverencia que me obrigou a manifes

tar este pensamento.

— Sim, porque adivinhei-o, mas continue.

— No mesmo instante o criado particular do dr.

- Guilherme veiu annunciar que tinha chegado uma carta

de Roma.

— De Roma? exclamou o dr. Guilherme, acordando

sobresaltado da sua madorna, abrindo os olhos eoruscan-

tes e erguendo-se sobre os cotovelos com uma presteza e

32 \NloNIO JOVOIIM UK HOSV

força que pareciam uncompaliveis com a completa pros

tração em que elle se achava. De Roma? Dae-nfa.

Eu entreguei nas mãos tremulas do dr. Guilherme a

carta, que havia passado das mãos tio portador para as

tio criado e das deste pari as minhas. O dr. Guilherme

proseguiu:

Encosta-me, Augusto, e vós. padre mestre Atha

nasio. rogae aos nossos reverendos irmãos que nos dei

xem por alguns instantes.

As quatro potências da egreja se retiraram, um com

a fronte erguida, e três cabisbaixos.

— Padre mestre, sente-se aqui bem perto de mim e

leia-me esta carta.

O padre Athanasio sentou-se na borda da cama, que

brou o sello da carta e leu:

lllmo. e revnio. sr. dr. Guilherme Pompêo de

Almeida.

"Roma, 4 tle setembro de 1712.

Reuniu-se hoje o soberano conclave para resolver

• sobre a petição de vossa illustrissima.

- Vossa illustrissima! exclamou o dr. Guilherme.

Não tenho esse tratamento, que só é dado aos bispos,

nu.- quer dizer isto? Continuai-, continuae.

O patlre mestre Athanasio continuou a ler:

O cardeal Capelli, com essa admirável eloqüência

"com que tantas vezes tem abalado as abobadas sagradas

' do Vaticano, advogou com enthusiasmo a causa de vossa

illustrissima; demonstrou que o celibato era contrario á

natun-za e as leis divinas e, prevalecendo-se do prece

dente criado pela concessão outorgada ao cardeal D.

-Henrique, de Portugal, concluiu propondo:

Que se acceitasse a renuncia que vossa illustrissnna

"fiz de presbytero da ordem de S. Pedro, visto ter jurado

-que o tomou não por vocação, mas violentado pelo i < s-

peito e obediência devidos a sua mãe, hoje fallecida.

A CRUZ J>E CEDRO 33

"Que fosse concedida a licença que vossa illustrissi-

"ma impetrava para poder casar-se.

O dr. Guilherme estremeceu.

O padre Athanasio .proseguiu:

"A maioria dos cardeaes adheriu á opinião do car

deal Capelli.

— Muito bem! lede, lede com toda a pressa, flisse o

dr. Guilherme.

"O papa Clemente XI, arrastado pela argumentação

vigorosa de Capelli, manifestou a sua adhesão em enér

gicas interrupções.

— Melhor! melhor! exclamou o enfermo.

"No entanto, contra toda a expectação, o papa mu-

'dou de opinião, e o soberano conclave resolveu afinal:

"Que se indeferisse a petição de vossa illustrissima,

visto não haver a mesma razão de Estado que se deu .pa-'

"ra se conceder egual graça ao cardeal D. Henrique.

— Ah! bradou o enfermo com raiva, é porque não

tenho uma coroa!

O padre mestre proseguiu a leitura:

"Que vossa illustrissima fosse agraciado com o ti-

"tutlo de bispo missionário.

" O cardeal Capelli é de opinião que com mais um

"milhão de cruzados se poderá obter ainda a graça que

vossa illustrissima deseja.

"Peço suas ordens a este respeito.

"Sou, etc.

"ROQUE MONTEIRO PAIM"

— Vil, estúpido e miserável emissário! exclamou o

dr. Guilherme com voz sonora e vibrante e endireitando

o corpo. Reduzir uma questão de tão alta magnitude,

uma questão de vida e de morte, á mesquinhez das ci

fras*! O que é um milhão de cruzados? Não lhes disse uma

e mil vezes que me não importava com o preço dessa

graça? Além de quinhentos mil cruzados que lhe entre

guei em barras de ouro, não o autorizei para gastar as

2,A CRUZ DE CEDKO

34 ANTÔNIO JOVQUIM DA IIOSA

trinta arrobas desse metal que tenho em Roma no poder

do padre Manuel Braga e de João Ribeiro? Não lhe dei

ordem franca para suar illimitadainente sobre as casas

de Santos Mendes Maciel. Antônio Corrêa e Manuel Fran

cisco de Lima, meus correspondentes de Lisboa e do

Porto? Imbecil! Que fez Manuel Pires Reboliças, inquisi

dor da Bahia? Que fez João Nunes Xavier, secretario do

santo officio de Lisboa? Que fizeram tantos outros que

me embairam com promessas pomposas? Traidores! mi

seráveis!. .

1'ma espuma sangrenta borbulhou nas extremidades

da boca do enfermo, e elle se interrompeu, suffocado pela

raiva que lhe minava o«peito.

- Ah! exclamou o padre-mestre Athanasio, porque

vossa illustrissima me não revelou ha mais tempo essa

pretençáo tão justa e tão legitima? Mas não importa:

tudo conseguiremos. Ahi está o doutor cirurgião mór Sa

raiva, que curará a vossa illustrissima, e immediatamen-

te eu seguirei para Roma, afim de obter a graça que aca

ba tle lhe ser negada com injustiça notaria. O geral da

companhia tle Jesus tem a cúria romana fechada nas

mãos. () próprio pontífice o teme e o respeita. Será elle

o nosso empenho, e podemos de antemão assegurar-vos

que tudo alcançaremos. 1'ni futuro tle esperanças se

abre deante de vós.

Sim; respondeu o enfermo com voz sepulcral. 0

futuro d'além túmulo! Se em logar dessas letras pontifí

cias, que me elevaram ao bispado, viesse a autorização

que eu desejava; si eu podesse dizer ao mundo; eis a

mãe de minha filha... si eu podesse apertal-a uma só

vez contra o meu peito, o sangue que se condensa em

minhas veias correria com força nova e vitalidade, e

este coração que se extingue estremeceria de prazer 'co

mo outr'ora... Mas agora é tarde, porque o gelo da mor

te me invade o coração... Padre! ouvi-me r|(. confissão

e apressae-vos a ministrar-me todos os sacramentos.

A CRUZ DE CEDRO 35

Eu retirei-me para a ante-camara e alli fiquei para

acudir' ao primeiro chamado. Dahi a meia hora o padre

Athanasio, afastando o reposteiro, deu ordem a um cria

do para ir chamar ao reverendo reitor; porém, no mes

mo instante appareceu elle. O padre Athanasio disse-lhe

duas palavras ao ouvido, voltou para a cabeceira do en

fermo, e o reverendo reitor sahiu precipitadamente pela

rua de S. Bento, voltando alguns instantes depois para

casa acompanhado do tabellião Euquerio de Aguiar Men

donça.

O padre-mestre Athanasio foi ao encontro do tabel

lião no reposteiro, apertou-lhe a mão e escorregou-lhe

um embrulho de moedas de ouro.

— Enganastes-vos, disse o padre Gaspar, não houve

sinão o aperto de mão.

Augusto^ de Lara proseguiu sem dar attenção á obser

vação negativa do jesuíta:

— O tabellião não deu nenhuma resposta, porém

metteu a mão no bolso do gibão como para refrescal-a

do contacto metallico da mão do padre Athanasio.

— Um mero acaso, disse ainda o jesuíta, querendo

protestar contra a illação que se podia tirar das palavras

do mancebo.

— Talvez. O tabellião, depois do mero acaso, segun

do affirma vossa reverencia, entrou com o padre Atha

nasio para o aposento do enfermo, e, passada meia hora,

o reverendo reitor foi advertido que chamasse cinco tes

temunhas para a approvação de um testamento.

Concluída a cerimonia judicial, o padre Athanasio

ficou ao lado do enfermo, emquanto o reverendo reitor foi

á matriz para trazer o sagrado Viatico. Toda a villa

acompanhou esta augusta cerimonia.

Depois disto entrou o cirurgião-mór Saraiva, deitou

uns pós brancos em um copo com duas colheres de água,

e deu o seu conteúdo ao enfermo, que, passados alguns

minutos, queixou-se que tinha o peito e as regiões abdo-

minaes abrazadas, como se tivesse engolido ferro em

,ili WTONTO lovyiTM m HOSA

brasa, e sentia dores horríveis no estômago e "°s "'"

testinos. ..

No meio dos seus dolorosos gemidos exlainoti: 'Ma

ria!... vou esperar-te no céu e lá nos casaremos a face

do Eterno!..." E. finalmente, contialiiram-se-llie as fei

ções annuviaram-se-lhe os olhos, e o meu amigo, suspi

rando ainda uma vez o doce nome de Maria, entregou a

alma ao creailor!

IX

Augusto tle Lara, depois de enxugar as lagrimas que

lhe rebentaram tios olhos, proseguiu:

O dobre lugubre e compassado dos sinos tia ma

triz e do mosteiro de S. Bento annunciou o passamento

infausto do mais illustre filho tia terra abençoada de Ti-

byriçá. O juiz ordinário, os vereadores da câmara, o pro

curador do conselho e todo o povo da villa affluiram

em tropel para a casa do egrégio finado.

O dr. André Baruil, syndico das esmolas dos Santos

Logares de Jerusalém, juiz dos resíduos e casamentos e

vigário da vara ecclesiastica, também compareceu alli.

O tabellião apresentou-lhe respeitosamente o testamento

do veneravel bispo. O juiz dos resíduos quebrou o fecho

de lacre encarnado ainda tepido e passou os olhos ligei

ramente pelo testamento. Todos os assistentes pendiam

dos lábios do dr. André Baruil, todos faziam mil conje

cturas, todos procuravam adivinhar quem seria o feliz

herdeiro das immensas riquezas tio grande bispo, e o dr.

Baruil, tendo concluído a leitura do% testamento, poz ter

mo á geral anciedade, dizendo no meio de profundo si

lencio: O illnio. bispo missionário, rev. dr. Guilherme,

que Deus haja, nomeou para seu testamenteiro ao reitor

o rev. padre mestre R ,phaei Machado e instituiu por seu

herdeiro universal a companhia de Jesus" Ouviu-se um

murmúrio de quasi todos os assistentes.

— Era uni murmúrio de approvação, diss. o padre

Gaspar do Santo Sepulcro.

V CRUZ DE CEDRO 37

— Outros tomaram em diverso sentido; mas, dei

xando isso de parte e fazendo justiça á companhia de

Jesus, apraz-me de memorar que ella fez ao inclyto fi

nado o mais pomposo furteral de que ha noticia.

— E' assim que testemunhamos a nossa gratidão aos

nossos bemfeitores, disse o padre Gaspar.

— Collocado o cadáver em um caixão coberto de

velludo preto, disse, continuando,, o narrad)or, seguiu

para S. Paulo carregado pelos capitães-móres Paulo Dias

Paes, Pedro Taques de Almeida e Paulo Frasão de Bri

to, pelo sargento-mór Manuel de Moraes e Siqueira, pelos

capitães Lourenço Castanho Taques, o moço, Manuel Dias

Rodrigues, Antônio Castanho da Silva e outros muitos

parentes de sua illustrissima. Os jesuítas, os frades Ben

tos, Carmelitas e Franciscanos e immenso povo, acompa

nharam o sahimento com tochas accesas desde a Parnahy-

ba até S. Paulo. Depois de màgnificas exéquias foi se

pultado o benemérito paulista na egreja do Collegio, jun

to do altar de S. Francisco'Xavier, abrindo-se sobre a

lagea da sepultura este merecido epitaphio: — Hoc jacet

in túmulo Guilhelmus Presbitcr, auro, et genere, et ma

gno nomine Pompeiús.

Augusto de Lara, torturado pela dolorosa reminis-

cencia dos factos que acabava de referir, reclinou a fron

te angustiada sobre a mão direita e se entregou por al

guns momentos a uma tristeza profunda. 0 padre Gas

par respeitou essa dôr intima e silenciosa, que era uma

sincera homenagem que o coração grato do mancebo

rendia á memória do grande Paulista. Emfim o joven"

Lara ergueu a cabeça e proseguiu com voz tremula de

emoção:

-— Derramei uma lagrima sentida sobre a fria cam

pa do meu mestre, do meu amigo, do protector da hu

manidade desvalida; e, não tendo apoio algum neste

mundo, dirigi-me para o logar do meu nascimento, sem

desígnio, sem saber mesmo o que faria.

38 ANTÔNIO JOAQUIM DA ROSA

Ao chegar oa valle de Carembehy. reconhecendo »s

logares marcados pelos passos da minha infância, sen 1

uma saudade indefinivel desses bellos tempos em que

gosamos os prazeres mais puros e mais innocentes, por

que ainda não conhecemos, nem sondamos o abysmo da

vida que se abre deante de nós. Sopesei as rédeas do meu

cavallo para fruir toda a embriaguez do momento, todas

as emoções que se acordavam em meu coração como um

eco longínquo e que pouco e pouco se approxima de

nos. Depois, avistando uma casa em pequena distancia,

dirigi-me para ella.

Apeei-me junto da cancella, e, penetrando a pé no

terreiro, entrevi ao pallido clarão da lua, reclinado sobre

o parapeito do vestibulo, um vulto que trajava vestido de

nuvens brancas, e fluetuantes, symbolo da candura, e

que nas suas fôrmas vaporosas mais pareciam um anjo

de innocencia que baixara do céu em um raio da lua,

do que um habitante da terra.

A lua, como que desejando duplicar o encanto desta

situação embriagante, projectou neste momento os seus

mais fulgidos raios sobre esse vulto mysterioso e fasci-

nador. Foi então que eu distingui um rosto de fôrmas

seduetoras, reclinado sobre a mão mimosa, em attitude

contemplativa, e seus bellos olhos fitos no céu com a

expressão da mais terna melancholia.

Seus cabellos louros ondulavam negligentes e gra

ciosos sobre os hombros de alabastro ao capricho da

tepida aragem da noite, que sussurrava tão meiga como

o timido suspiro da virgem que sonha com o seu pri

meiro amor.

Electrizado pela mágica e poética belleza deste anjo,

exclamei involuntariamente com suprema emoção: Ju-

h=.l A esta exclamação, despertando do seu áureo scis-

m

e L-eshsar.do-se- como uma sombra, desappareceu aos

meus olhos, qual uma dessas bellas visões dos contos de

A CRUZ DE CEDRO 39

Mil e Uma Noites, mal entrevista em sonho que se extin

gue. Acalmada a violenta agitação de meu peito, bradei:

— O' de casa!

— Quem é? perguntou uma voz de accento rude,

que partia de um vulto encoberto na parte iriais sombria

do alpendre.

— Sou Augusto de Lara.

Mal pronunciei este nome, uma velha saltou-me ao

pescoço, exclamando, meio suffocada:

— Meu filho!... ha tanto tempo que o não vejo!

Que prazer não terá Julia de abraçar o seu querido ir

mão! Vou dar parte ao capitão André..

E, cingindo-me ainda uma vez os braços descarna

dos em torno ao pescoço, correu pára dentro. A boa ve

lha que me tratava com^ tanto amor e carinho era Isabel

Malaia, da tribu de Guayanaz, que havia sido minha ama

de leite e algumas vezes de Julia, que era mais freqüen

temente amamentada por sua mãe, que fallecera havia

, Ires ou quatro annos.

O capitão André veiu receber-me com acolhimento

paternal, recolheu-me para a sala, onde conversámos lar

gamente sobre a morte do veneravel bispo missionário.

Depois da ceia nos separámos para os quartos de dor

mir, sem que uma só vez reapparecesse ante meus olhos

a visão fugitiva do vestibulo, tão avidamente desejada.

Mas, ao deitar-me, não podendo explicar a razão por que

Julia nem ao menos veiu cumprimentar-me, para mitigar

este sentimento, parodiando a minha velha mamãe, disse:

Que prazer não terá Julia de abraçar o seu querido ir

mão!..

No dia seguinte o capitão André disse-me que, com-

quanto eu ainda não tivesse attingido a maioridade, to

davia, confiando na minha aptidão, ia entregar-me a mi

nha pequena herança. Effectivamente levando-me para

a casa em que meus pães habitaram, entregou-me os pou

cos bens que elles me deixaram, e que consistiam em

um pequeno sitio e terras, um casal de escravos já ve-

(II V\IO\TO .IOVOIIM l>\ ItOS \

lhos. sete indígenas administrados e algumas cabeças de

rezes.

Passados alguns dias, fui a uma caçada tle veados

com o capitão André, e, correndo a galope, afim de ga

nhar um logar por onde costumava passar o veado tpie

já se tinha levantado, o meu cavallo rodou por um des-

filadeiro, envolvendo-me na sua queda. Quando dei accor-

ilo de mim, achei-me em um quarto desconhecido e pro

curei reconhecer as pessoas que me faziam companhia.

Junto da cabeceira eslava assentado o capitão André'de

Góes com semblante afflicto e pensativo. Aos pés da ca

ma se achava a minha velha mamãe, mostrando no rosto

bronzeado o vivo sentimento que se havia apoderado do

seu coração quasi maternal. Ema joven enfermeira se

inclinava sobre o leito, banhando-me a perna esquerda

com uma ^mistura de camphora alcoólica. Apesar das do

res horríveis que sentia na perna esquerda, que se acha

va fracturada, reconheci na minha enfermeira a bella

visão do alpendre; comtemplei com deliciosa emoção

esse semblante angélico, que exprimia o mais terno in

teresse, a mais funda melancholia e vi rolar de seus olhos

uma lagrima silenciosa e pura como o orvalho da ma

nhã que treme nas pétalas assetinadas de perfumada flor.

No meio dessas dores cruéis que me torturavam, crel-o-

eis, meu padre, que me desvaneci de haver soffrido esse

sinistro e que bemdisse á Providencia por me haver con

cedido aquelle supplicio, que me approximava da terna

companheira da minha infância.

— Oh! si o creio! respondeu o padre Gaspar com

sorriso de complacente bondade.

— Foi então que eu concordei com aquelle philoso-

pho da antigüidade, que dizia no estoicismo do seu co

ração — que a dôr não é o maior dos males.

— Comtudo que essa dôr seja mitigada pela presen

ça de uma enfermeira moça, bella e amada, disse o je

suíta com sorriso ainda mais doce.

A CRUZ DE CEDRO 41

— E* verdade que o philosopho não teve razão de

esquecer-se dessa circumstancia attenuante e indispensá

vel.

Quando me achei restabelecido, tive profundo pesar

de se não ter prolongado por mais tempo o meu incom-

modo e tive até desejos de fracturar a outra perna.

— Bém insensato era esse desejo, meu filho! Como é

insondavel o abysmo do coração humano!

— Nas véspera de minha volta para casa, Julia e

eu renovámos os juramentos da nossa infância, e nos

promettemos eterno amor e fidelidade. A boa Isabel,

companheira inseparável de Julia, chorando de prazer

como nós, abençoou o nosso amor. Desde então o tem

po correu para mim longo e breve, triste e prazenteiro,

mesclado de desalento e de doces esperanças; longo e

triste, quando passava longe delia; breve, prazenteiro" e

esperançoso, quando me achava aq seu lado.

— E' fácil adivinhar essas mutações atmosphericas

no céu dos amantes, ora sereno e anilado, ora negro e

tempestuoso, disse o jesuita.

— Depois de elaborar, discutir, approvar e rejeitar

mil projectos; depois de mil ares de hesitações, resolvi-

me a ir pedir a mão de Julia.

Chegando á casa do capitão André, veiu elle ao meu

encontro, e disse-me:

— Augusto, estou hoje desatinado por um grande

sentimento.

— Pois aconteceu-lhe alguma desgraça? (e.

— Sim, Augusto, e muito grande. Sabeis o immenso

apreço que eu fico daquelle famoso galgo que mé deu o

dr. Guilherme pouco antes da sua morte. Pois bem, pas

sou hoje por aqui um cão damnado e o mordeu. Agora,

nem tenho animo de' o ver damnado, nem de mandar

matal-o.

— Muito estimo ter vindo nesta occasião, porque

sei um remédio infallivel para preservar o seu lindo gal

go de hydrophobia.

42 ANIONIO JOAQUIM DA H0SA

— Deveras? Qual é esse remédio infallivcl?

— E' um remédio de que usava o dr. Guilherme

e que todo o inundo devia saber, porque c um preseiv

vativo tle infallivel efficacia, tanto para a espécie hu

mana como para os quadrúpedes.

— Então fazei-o depressa.

— Preciso de algumas plantas mui simples que se

encontram talvez ainda nestes arrabaldes c que minha

irmã também conhece.

Julia, que alli estava, respondeu que, si a guiasse,

mo»trar-me-ia ainda todas as plantas que nos divertia-

mos em colher na nossa infância. Sahimos então, o ca

pitão André, sua filha e eu, e em breve voltámos com her-

vas que preparei. Mandei então vir o galgo, que já se

achava em uma corrente, com as orelhas cahidas, olhos

afogueados e muito triste.

Vede como está triste, disse o capitão André.

Datpii a pouco ahi vem a baba, e ahi o temos damna

do. No emtanto dae o remédio.

Entornei o remédio pela bocea do galgo e tirei-lhe

a corrente contra o voto do capitão André. Passados al

guns minutos, o galgo começou a rabejar, seus olhos ex

primiram algum contentamento, pouco depois, se poz

a festejar seu amo e a mim, como, que me agradecendo

o seu curativo.

— Está salvo! exclamou o capitão André, abraçan-

do-mc com enthusiastico prazer, e agradecendo-me tam

bém Julia este pequeno serviço com um olhar repassado

de ternura e de melancholia.

Por delicadeza ou por falta de animo pareceu-me

que a occ.isião não era opportuna para fazer a minha

proposta, que podia ser considerada como a recompensa

desse nada que eu ,-al ,va de fazer a quem por duas vezes

me salvou a vida. Deixei decorrer alguns dias c hontem

tomei o expediente de escrever-lhe uma carta pedindo a

mao

tei alguns momentos antes de abrir essa carta que encer-

A CRUZ DE CEDRO 43

rava o meu destino, a minha vida, ou a minha morte;

que ia transportar-me ao céu, ou abysmar-me ao infer

no, até que afinal, quebrando o fecho, li estas palavras

horríveis, que me ficaram gravadas no cérebro com ca

racteres de fogo: "Julia não pôde ser e nunca será a es

posa do orpham de Carembehy". Meu padre! fazeis idéa

do rugido do tigre que sente entranhar-se-lhe no coração

a ponta de dura flecha despedida pela mão varonil do

intrépido Guayanaz? Foi o meu rugido de desespero. Fa

zeis idéa das dores sobre-humanas que 'estortegaram a

alma do rei das forças, quando trajou a túnica empesta-

da no sangue da hydra Lernia, que lhe fora offertada por

Dejanira? Foram essas as dores moraes que me tortura

ram e me lançaram no mais horrivel de todos os deses

peros!

— Pobre moço! exclamou o jesuíta compungido.

— Lüctando, acabrunhado, com essa desgraça que

acabava de me ser fulminada com tanta crueldade, to

mei uma resolução desesperada; tracei algumas linhas em

um papel com direcção a Julia, recommendei a um dos

meus indígenas que o entregasse á minha mamãe dalli a

uma hora; carreguei uma pistola, fazendo a bucha dessa

carta fatal; e proferindo pela ultima vez o doce nome, de

Julia, levei ao ouvido o bronze da morte.

O padre Gaspar estremeceu.

— Desgraçado! bradou a voz de uma mulher, que

se precipitou para o meu lado com a rapidez do pensa

mento. Meu braço febricitante cahiu inerte, o instrumen

to da morte rolou no chão, e o ribombo de um tiro echoou

pavoroso nas abobadas da casa da tristeza!

— Não estás "ferido, meu filho? perguntou-me a boa

mulher, examinando-me por todos os lados.

— Não, mamãe, respondi eu, todo confuso.

— Dou mil graças a Deus por,chegar ainda a tempo

de salvar-te. Ingrato! não te lembravas de Julia? Não te

deteve o braço a certeza de que a matavas com tua mor

te?

II VNloNlO JOVOlIM HA nos V

— Não me accuseis, mamãe: era mesmo por ella que

eu ia...

— Não falemos mais nisso; tem juizo e escuta-me,

— Falae, mamãe, que eu vos escuto.

— Julia manda dizer-te que não desesperes; que ella

tem muita fé no amor de seu pae, e que á força tle rogos

e de lagrimas espera que elle mudará de resolução. A'

vista disto já vês, meu filho, que era uma grande loucu

ra essa que ias transformando todos os nossos planos.

— Pois beni, mamãe, dizei-lhe que.. Em dilúvio tle

lagrimas e soluços embargou-me a voz.

— Bem sei o que hei de dizer-lhe. Tranquiliza-te

e tem esperança. Sinto não poder demorar-me para con

solar-te. Adeus, meu filho!

Fiquei mergulhado na mais profunda tristeza. A car

ta fatal, cujos termos tinha gravados na memória, tira-

va-nie ainda o mais remoto vislumbre da esperança, e

as minhas itléas se voltavam para o suicídio como único

porto de salvação e di descanço. Carreguei tle novo a

arma fatal e esperei com soffreguitláo a ultima scena

deste drama horroroso.

Hoje au romper d'alva se apresentou em minha casa

a minha boa mamãe. Pela expressão tle sua phvsionomia

adivinhei que vinha triste e preoecupada.

- J.i sei, mamãe, que me lia/.eis más novas.

Más por um lado, mas muito l»o:i> por outro.

Falae.

Promettes ser discreto e ouvir-me com prudência?

— Para que esses rodeios, mamãe? Não vedes que

apczar de lér no vosso semblante novas desgraças, es

tou calmo e impassível como um rochedo, porque toda

a illusáo que me dourava a existência já se quebrou de

encontro ao meu coração?

— Oh! não me fales assim, meu filho, disse ella,

derramando copiosas lagrimas.

— Tranquilisae-vos, minha querida mamãe, e dizei-

me a que vindes.

A CRUZ DE CEDRO 4)

— Os rogos e o pranto de Julia não commovcrani

o capitão André.

— Eu o esperava, mamãe, respondi com calma e

tranqüilidade.

— E para cumulo de desgraça o capitão André de

clarou hontem á noite á sua filha que contractou ca-

sal-a. .

— Com quem? bradei eu, levantando-me e quebran

do a taboa, de uma meza com uma violenta punhada.

— Tranquiliza-te, meu filho!

— Com quem? repeti eu quasi em delírio. Fala,

mensageira do inferno, ou te quebro a cabeça como que

brei esta mesa.

— Com o capitão Gonçalo Castanho Taques, respon

deu ella toda tremula.

— Ah! exclamei com riso nervoso, com esse riso de

desespero, com esse sorrir dos demônios. Com o capitão

Gonçalo Castanho Taques! Está bem! é moço, bello e ri

co... é mais digno do que o pobre orpham de Carem

behy! Está bem! Agradeço-vos o me haverdes suspendido

o braço hontem, para me dardes hoje essa punhalada

mais venenosa, mais mortífera! Obrigado, boa mamãe!

Retirae-vos: eu vol-o peço.

— Escuta-me ainda por um pouco. Já dei as más

novas, mas restam ainda as boas.

— Já não quero ver o reverso da medalha. Retirae-

vos.

— Has de óuvir-me. Julia prefere a morte a esposar

qualquer outro que não seja Augusto de Lara. Nas cir-

cumstancias desesperadas em que ella se acha, incumbiu-

me de te propor que a esperes hoje, á meia-noite, junto

do cedro de Carembehy, comtanto que dês a tua palavra

de honra de a respeitar como a uma irmã, e de condu-

zil-a ao collegio de Araçariguama, para ahi a receberes

á face dos altares, e seguir qualquer destino que te aprou-

vér.

Ili ANTÔNIO JOAQUIM l>V ROSA

— Sim! Sim! voltae, correi, ide dizer-lhe que sim,

mil vezes sim!

— Espcrae. Ella não deseja que tomeis precipitada

mente uma resolução desta ordem: pelo contrario, pe

de-vos que penseis bem sobre tão melindroso assumpto;

e si reprovardes a sua proposta, ao pôr do sol levanteis

no vosso terreiro uma bandeira negra; mas si approvar-

des o plano que vos tracei, como cila o deseja ardente

mente, fica entendido que a esperareis á meia-noite jun

to do cedro de Carembehy.

— Pois bem, minha boa, minha querida mamãe! Vol

tae para junto desse anjo; dizei-lhe que aprecio no mais

alto grau a sua delicadeza de não exigir de mim uma re

solução prompta e immediata; mas que infallivelmente a

esperarei junto do cedro de Carembehy; dizei-lhe que a

respeitarei como irmã, como divindade; dizei-lhe que

este idiaçáo que definhava começa a palpitar cheio de

vida e de esperança; dizei-lhe, finalmente, que eu lhe en

vio desta solidão o meu coração c a minha alma repassa

dos de amor e de gratidão!

Eis ahi, meu padre, as dolorosas conjuneturas da

mais critica e angustiatla situação! Devo eu raptar a fi

lha do capitão André? Devo levar o opprobrio ao seio

da família do meu bcmfeitor, do meu segundo pae, do

homem a quem devo a vida duas vezes? Não! nesse caso,

ao pôr do sol, no momento em que fluetuar no meu ter

reiro a bandeira negra, saudal-a-ei com um medonho es

tampido, que repercutirá aos ouvidos da tremula Julia,

e um infeliz terminará nesse instante a sua dolorosa pe

regrinação sobre a terra!

— Meu Deus! removei tamanha desgraça! exclamou

o jesuíta, erguendo os olhos para o céu.

— Por outro lado, continuou Augusto, merece elle

um tal sacrifício? Para que arrancou-me duas vezes das

bordas da sepultura para agora assassinar-me milhões de

vezes, sacrificando a um capricho vão a felicidade de sua

filha e os mais puros affectos do meu coração? Oh! meu

A CRUZ DE CEDRO 47

padre! aconselhae-me nesta cruel angustia; guiae a mi

nha vontade que vacilla... é com lagrimas que vol-o pe

ço!.. Que? meu padre! meu amigo! também vós cho-

raès?!

— E' com lagrimas, respondeu o padre Gaspar, es

forçando-se por soluçar, é com lagrimas que me associo

aos vossos infortúnios; é com lagrimas que vos dou um

testemunho irrefragavel dos meus sentimentos.

— Obrigado, meu padre! mil vezes obrigado! excla

mou Augusto, apertando com força a mão do jesuíta.

XI

A esta scena tocante seguiu-se um lugubre silencio,

apenas interrompido pelo pranto e pelos soluços do man

cebo e do jesuíta/ Depois dessa triste expansão de lagri

mas, Augusto de Lara, quebrando o silencio:

— Bem vejo, meu padre, disse elle, que as vossas la

grimas me dizem na sua linguagem eloqüente, que vós

mesmo não sabeis guiar-me neste escuro e horroroso la-

byrintho.

— Não, meu filho! choro porque me interesso por

vós, choro porque comprehendo as cruéis amarguras que

vos pungem o coração; mas não tomeis o meu pranto

como indicio de desanimo. Não; o humilde servo do Se

nhor, que tem fé viva no poder mysterioso e incompre-

hensivel do Ente Supremo, não desanima jamais deante

de quaesquer difficuldades, quando se trata de fazer o

bem. Tranquillizae-vos, pois, meu pobre amigo, e tende

certeza de que, com o auxilio de Deus, em breve o sorri

so do prazer virá enxugar as lagrimas da tristeza.

Augusto meneou a cabeça com incredulidade.

— Não duvideis, meu filho! Não sabeis que sou o

confessor do capitão André? Que exerço grande e illi-

mitada ascendência sobre o seu espirito? Que muitas ve

zes tenho feito dobrar a sua vontade de ferro? Que posso

fulminal-o com os raios da excommunhão? Que o respon-

IX ANIONIO JOAQUIM I>V I«OS\

sabili/.ando pela vossa morte, pela morte de sua própria

filha, ameaçal-o-ei de denuncial-o e tle leval-o a barra da

inquisição tio Santo Officio tia Bahia?

Ah! meu patlre. não nos illudainos! tudo esta per

dido. Não sabeis que os verdadeiros paulistas preferem

todas as torturas, preferem que se lhes arranquem os

olhos em vida. preferem as fogueiras da inquisição a fal

tar á sua palavra? Não sabeis que o capitão André tle

Cot s e paulista que deu sua palavra ao capitão Gonçalo

Castanho?

— Sei tudo isso, meu filho; mas sei apreciar me

lhor do que qualquer outro qual o grau da influencia que

exerço sobre o capitão André. Sois ainda muito joven

e inexperto para poder avaliar devidamente o poder tia

diplomacia dos jesuítas. Mas, concedendo mesmo que o

capitão André se conserve inabalável como um rochedo,

inaccessivel como a montanha gigantesca e pyramidal tio

Saboó e não preste ouvidos á boa razão, mesmo assim

persisto na minha opinião.

— Porque?

Porque nesse caso, exgolailos todos os recursos

da persuasão, eu serei o primeiro a dizer-te: Mancebo!

á meia-noite acha-te junto do cedro tle Carembehy, apo

dera-te tia tua Julia e conduze-a á capella tio collegio;

onde encontrarás um padre que abençoará o teu amor.

— E esse patlre... exclamou o joven Lara, suffoca-

do de prazer e sem potler concluir a phrase.

— Esse padre serei eu, respondeu o jesuíta, compre-

hendendo o pensamento do mancebo.

— Quanto sois bom, meu amigo!.

— Acliaieis dois cavallos á vossa espera; dar-vos-ei

a minha bolsa e petlirei ao céu que guie os vossos passos

e que vos inspire.

<> moço beijou a mão do jesuíta, que humedeceu

com lagrimas de gratidão, e disse com extrema sensibi

lidade:

A CRUZ DE CEDRO 49

— Obrigado, meu padre! mil vezes obrigado! Não

aceeitarei , sinão um cavallo, porque tenho outro; não

acceitarei a vossa bolsa, porque ainda conservo intacta

outra que devo á munificencia do dr. Guilherme. Mas,

meu padre... já que sois tão bom, partamos: eu vol-o

peço de joelhos.

— Pois quereis acompanhar-me? Seria isso uma re

matada imprudência. Não: ficareis aqui até a minha vol

ta. Eu o quero e vol-o ordeno.

— Pois bem, obedeço.

—• E como não seria conveniente que se conservasse

na minha cella um secular, que pôde desafiar a attenção

de importunos curiosos que viriam incommodar-vos

quando haveis mister de socego e solidão, guardae a vos

sa calça e jaqueta na gaveta daquella commoda, para que

não ^ejam vistas, e tomai esta roupeta de estamenha, em-

quanto vou pedir licença ao rev. reitor para ir a Carem

behy.

O padre Gaspar cerrou sobre seus passos a porta da

cella, e dirigiu-se para a do reitor.

Passaram-se alguns instantes. Quando o padre Gas

par voltou e empurrou a porta da sua cella, viu com os

braços cruzados um jesuíta, cuja cabeça pendia medita

tiva para uma mesa juncada de livros em desordem.

— Como vos diz bem essa roupeta, meu caro neo-

phyto, disse elle, entrando.

— Ah! exclamou Augusto de Lara sobrésaltado e

com extrema vivacidade. Encontraste o capitão André?

Que respondeu elle? Persuadistes-o? Desattendeu-vos?

Mas... qüè riso é esse? Oh! estaes alegres, porque elle

cedeu? Não é assim, meu padre? Falae, por compai

xão. .r.

— Não vos lembraes, meu joven companheiro, que

fui á cella do rev. reitor, e que apenas têm decorrido al

guns segundos depois que nos separámos?

— Ah! recordo-me agora! Mas parti, que a minha

alma e o meu pensamento vos acompanham,

ã(l VNTONIO JOAQUIM DA lltis \

— Sim, meu amigo, eu parto, e em breve serei eoin-

vosco. Tende fé e esperança.

O padre Gaspar desappareccu, cerrando a porta pela

segunda vez sobre suas costas.

O improvisado jesuíta, realizando este antigo adagio

— que não é o habito que faz o monge — uma só vez

não pensou como pensavam os jesuítas; porque, segundo

havia proinettido, a sua alma e o seu pensamento haviam

acompanhado o padre Gaspar, e delle não havia ficado

si não uni corpo inerte, sem sensação e quase sem vida,

ou, para melhor dizer, em phrase moderna, um perfeito

somnambulo, com a differença de ser elle mesmo o ma-

gnetizado e o magnetizador.

XII

A's quatro horas da tarde o padre Gaspar do Santo

Sepulcro assomou com semblante risonho no limiar da

porta da cella que encerrava o pscudo-neophyto. Augus

to de Lara, acordando do seu magnetismo, atirou-se ao

encontro do reverendo e o suffocou com um turbilhão de

perguntas. O verdadeiro jesuita, assentando-se em uma

cadeira, disse com toda a fleugma:

— Si quereis saber todos os pormenores da minha

missão diplomática, escutae-me sem interromper-me

com vossas incessantes e atordoadoras questões.

— Eu vos escufo com silencio e ávido interesse.

O jesuita molhou a garganta com um copo do gene

roso vinho que estava sobre a mesa e, tomando a attitu-

de de um duque de Richelieu ou de um Talleyrand, co

meçou o relatório da sua missão diplomática nos termos

seguintes:

— Cheguei ao sitio de Carembehy. O capitão An

dré recebeu-me com essa urbanidade que o caracteriza,

com o prazer e, direi mesmo, com enthusiasmo que sóe

testemunhar-me quando nos encontramos. Depois dos

A CRUZ DE CEDRO 51

cumprimentos do estylo e de conversarmos sobre diver

sas furilidades, perguntei-lhe si Julia estava doente, vis

to que não me apparecia como era seu costume.

— Está um pouco indisposta, respondeu-me o ca

pitão André.

— E uma razão de mais para eu vel-a, porque enten

do um pouco de medicina.

O capitão André mandou chamal-a. Dahi a pouco

appareceu uma moça bella como um anjo..

— Ah! era ella! exclamou Augusto, saltando na ca

deira.

— Sim, era ella. Vinha vestida em desalinho; Seus

lindos cabéllos ondulavam descuidosos ao sopro da bri

sa; seus olhos outr'ora tão bellos estavam orlados de ne

gros cilios, humidos do pranto mal enxuto.. .

— Ah! ella chorava, meu padre? disse o joven aman

te, soluçando e também enxugando uma lagrima de emo

ção, que lhe rebentara dos olhos.

— Sim, ella chorava. Ao vel-a tão abatida, tão me-

lancholica:

— Minha filha, disse-lhe eu, que é que tendes?

— Nada, sr. padre, respondeu ella com voz tremula.

— Débalde quereis illudir-me. Se o vosso corpo es

tá são, vossa alma está enferma; e eu vos peço que me

confieis as vossas afflicções para que eu as mitigue.

— Não é nada, respondeu por ella o capitão André.

São tolices de meninas.

— Mas saibamos de que gênero são essas tolices.

— Eu vou contar-lhe, sr. padre. Contratei o casa

mento desta menina com o meu visinho e amigo — o

capitão Gonçalo Castanho, que é um dos mais nobres e

ricos cavalleiros destes arredores; porém, esta tolinha

embirrou em querer casar-se com um orpham de nome

Augusto, que se criou em minha casa, e que, apesar de

ter boa educação e bom proceder, todavia é um rapazola

sem eira nem beira. Ora, eu já a desenganei dessa tão des-

egual e louca pretenção, e eis ahi porque ella se mostra

,"l2 WloNIO JOVOlTM DV IIOSX

tão magoada; isto é, porque eu quero fa/er a sua leli-

cidatle.

— A felicidade! bulbuciou Julia a meia voz.

— Bem vedes; disse eu a André tle Góes em tolii

persuasivo, que Julia protesta com suas lagrimas elo

qüentes contra essa felicidade que lhe quereis impor não

como pae, mas como bárbaro padrasto. Que! O homem

que devia desvelar-se pela felicidade de sua única filha;

que devia fazer por ella todos os sacrifícios, constitue-se

padrasto e verdugo e envenena o presente e o futuro tle

um anjo que o céu confiou á sua guarda! Desgraçado!

não vedes sumirem-se sob a lousa tio túmulo a felicidade

e o porvir tle vossos dous filhos, porque Augusto de Lara

lambem é vosso filho? Não recuais, não estreniecereis

ante a idea horrorosa de serdes duas vezes assassino?

Pae degenerado, que sacrifieaes ao vil interesse tlri ouro

a sorte tio ente que vos devia ser mais caro, não vedes o

inferno que se abre deante tle vossos passos para tragar

em suas fauces negras e medonhas o misero filicitla?!

O capitão André curvou a fronte, como que fulmi

nado por esta apostrophe. Julia agradecia os meus es

forços com seus olhos lacrimosos.

— Meu padre! respondeu André tle Góes com voz

grave e erguendo a custo a cabeça abatida, vejo que fiz

mal. Ah! si o céu invejoso tão cedo não arrebatasse tle

meus braços a minha boa e santa mulher, talvez que ella

me tivesse aconselhado a tempo...

— I-:. mesmo lá do céu, redargui com vivacidatle,

ella vos amaldiçoa por fazerdes a desgraça da sua filha

tão amada!

— Bem o mereço e bem o sinto!

Mas si vós mesmo sentis haver dado um passo in

considerado, quem vos impede de retrocedel-o? Porque

não remediaes um mal que tão fácil é de se remediar?

— Porque não posso.

— E porque é que não podeis?

A CRUZ DE CEDRO i).i

— Porque dei a minha palavra ao capitão Gonçalo,

e porque um paulista prefere as maldições do céu e da

terra, as torturas e as fogueiras da inquisição, as penas

eternas do inferno, a faltar á sua palavra.

— Ah! exclamou Augusto com voz desfallecida, bem

vol-o disse, meu padre!

— Ah! exclamei eu com horror, continuou o padre

Gaspar. .Ah! não quereis ouvir a voz de Deus que vos

brada por meu orgam: "Salvae-vos!" Pois bem! intimo-

vos para comparecerdes perante o inexorável tribunal do

santo officio da Bahia; emprazo o vosso corpo para as

fogueiras da inquisição, e a vossa alma negra para com

parecer dentro de três mezes perante a barra do severo

e tremendo juizo de Deus, severo e tremendo para os- fi-

licidas! (*)

— Padre! acceito a condemnação e tudo arrostarei

com a stoica inflexibilidade de um verdadeiro paulista.

Ha só um meio de mudar a face desta horrivel situação,

que eu deploro mais por minha filha do que por mim:*

— E qual é esse meio?

— E' inútil.

— Embora! Eu vol-o ordeno em nome de Deus.

— Esse único meio seria a desistência formal e es-

pontanea do capitão Gonçalo.

— E si se der essa eventualidade prometteis dar a

mão de Julia a Augusto de Lara?

O capitão André hesitou. Julia se precipitou aos

seus pés, abraçando-os e banhando-os com orvalho crys-

talino dos seus bellos olhos.

— Não podeis recusar, disse eu com autoridade. O

céu vol-o oi»dena!

— Pois bem: consentirei, mas unicamente na hypo-

these que já estabeleci.

— Daes vossa palavra de paulista?

— Eu vol-a dou.

(li Os jesuítas recorriam coinmuminonlc estas ultimações para

juizo

• >4 ANTÔNIO JOVOIIM DA IIOSA

Neste instante apeou-se no terreiro o sargento-mór

Luiz Pedro de Burros, e o capitão André apressou-se a

ir recebei-o. Aproveitei-me tleste ensejo para dizer a Ju

lia que tinha certeza de obter a renuncia do capitão Gon

çalo e, conseguintemenle, que ella não fosse esta noite ao

cedro tle Carembehy, porque não vos encontraria. Julia

corou e abaixou seus bellos olhos repassados de pudor e

tle gratidão.

— Ah! exclamou Augusto, fizeste mal tle lh'o dizer,

porque o capitão Gonçalo náo_ renunciará o céu, renun

ciando a mão do mais puro e do mais bello dos seus an

jos!

- Vel-o-eis, moço deseriilo! Logo depois da chegada

ilo sargento-mór Luiz Petlroso, levantei-me para me ir

embora.

- Que e isso, reverendo padre-mestre? Vai se em

bora por eu ter chegado?

— Não, meu amigo, vou porque tenho um negocio

urgente com o capitão Gonçalo.

— Foi bom fazer-me de abelhudo, para poder pres

tar-lhe um pequeno serviço, prevenindo a vossa reveren

cia que guarde para a tarde de amanhã a sua visita a

meu primo, porque o encontrei no caminho de Parnahyba.

— Ah! disse Augusto, é verdade que hoje bem cedo

o vi de longe a cavallo seguindo essa direcção.

— A vista deste inesperado contratempo, para me

lhor orientar-me, entabolei uma conversação para colher

as maduras, como se costuma dizer.

— Então, sr. sargento-mór, vistes ao vosso primo?

— Sim, reverendo, vi-o, e por signal que ia bem

ti isle.

— E não será imprudência perguntar-vos a razão

dessa tristeza?

— De modo algum, e até muito estimo achar aqui

Vossa Reverencia, que pôde prestar-me um auxilio pode

roso.

— Estou ás vossas ordens, respondi, pulsando-me

o coração dç contente.

A CRUZ DE CEDRO 55

— Eis o caso sem mais preâmbulos. O nosso velho

amigo o sr. capitão André procurou hontem a meu pri

mo Gonçalo e offereceu-lhe a mão da sra. d. Julia.

— E' verdade, disse-lhe o capitão Góes.

— Meu primo acceitou immediatamente essa honro

sa proposta.

— Também é verdade, respondeu o pae de Julia.

— Mas hoje muito cedo uma velha informou-o de

que a sra. d. Julia se achava em lagrimas e que prefe

ria casar-se com um moço que se criou com ella. Meu

primo, cavalheiro como é, não deseja que a sra. d. Julia

sacrifique a felicidade delle á sua própria felicidade, e

encarregou-me de pedir uma explicação franca a este

respeito, e, no caso affirmativo, de renunciar em seu

nome com toda a lealdade a mão de vossa bella filha.

— Que nobre e generoso cavalheiro! exclamou Au

gusto de Lara.

— Foi essa a exclamação que partiu de todos os co

rações que alli se achavam. As acções nobres e genero

sas acham écho em todas as almas egualmente nobres.

— Bem, disse o capitão André, acceito a renuncia

nos -termos em que me é proposta, mas sem que duvide

nem remota e ligeiramentoe da palavra do honrado sr.

sargento-mór Luiz Pedroso, a quem tributo a mais alta

estima e consideração, todavia, como se trata de um ne

gocio assás melindroso, que affecta a minha honra, para

.resalval-a, peço encarecidamente ao sr. sargento-mór que

se digne de trazer á nossa casa o seu nobre primo para

fazer a renuncia de viva voz.

— Não vejo nisso o menor inconveniente, mas só

amanhã de tarde é que poderemos vir, visto que meu pri

mo foi hoje para a Parnahyba, como já disse.

O capitão André voltando-se para meu lado:

— Peço a Vossa Reverencia, disse elle, que também

venha amanhã de tarde, para tratarmos do casamento

de Augusto de Lara, visto ser Vossa Reverencia o seu

poderoso patrono.

.-,(-, VNIONIO JOAQUIM DA HOS.V

- Oh! meu padre! meu amigo! exclamou o joven

Lara, abraçando o jesuita com transporte, vós me fazeis

•nlouquecer tle prazer!

\s nove horas tia noite reinava profunda escuridão

na cella do padre Gaspar.

Ouviram-se Ires pancadas maçonitas na porta, tio

iado tle fora.

-- Quem bate? perguntou o jesuita com mau humor.

Sou eu, respondeu do lado do corredor uma voz

conhecida.

— Ah! sois vós padre Ignacio? disse o jesuita, le-

vantando-se e abrindo a porta. Vossas visitas a estas ho

ras são sempre pouco agradáveis.

— Bem sabeis que não as faço por minha conta.

— Então que temos?

— Acha-se gravemente enfermo no Japy o capitão

Gaspar Leme do Prado, e o reverendo reitor ordena á

vossa reverencia que vá levar-lhe os soccorros espiri

tuais com toda a urgência.

— Sempre eu!

— Lembrae-vos, meu irmão, que o descanso dos pa

dres da companhia tle Jesus são os trabalhos, as attribu-

lações, os sacrifícios, por mais penosos que elles sejam;

lembrae-vos que o tempo que gastaes com hesitações es

téreis devieis empregal-o em abrir as portas do céu á

alma do christão que reclama a assistência de um guia

e que talvez se perca por vossa causa.

— Tendes razão, padre Ignacio, pcrdoae este tri

buto que paguei á fraqueza humana e ficae certo que

andarei com tal rapidez que recupere o tempo perdido.

Emquanto o padre Gaspar se exprimia deste modo,

approxiinou-se da commoda, abriu uma gaveta sem fazer

o menor ruido e tirou a calça e jaqueta de Augusto de

Lara.

— Quereis que eu vos acompanhe".' perguntou este.

— Não, porque haveis mister de repouso, e eu de

pressa. Antes tle amanhecer estarei de volta. Quereis fe-

A CRUZ DE CEDRO 57

char a porta por dentro, ou será melhor que eu leve a

chave?

— Será melhor que a leveis.

Pois então leval-a-ei, disse o jesuita, pondo na cabeça

o chapéo de Braga do seu prisioneiro; e dando volta na

chave, guardou-a na algibeira e desceu a escada com

passos de gato.

O seu amigo padre Ignacio o estava esperando na

portaria do collegio.

— Tomae esta roupeta, disse-lhe o padre Gaspar, en

fiando a calça e a jaqueta do pobre prisioneiro, que lhe

ficaram bem justas por ter a mesma estatura e o mesmo

corpo.

— Agora vamos tirar um cavallo da estrebaria.

— Já está ajaezado e á vossa espera.

— Qual delles?

— O tordilho do nosso amigo Lara e com os seus

próprios arreiros.

— Sois impagável, caríssimo padre Ignacio!

— Sou apenas vosso digno discipulo.

1—. Obrigado! Agora resta que vos acheis no logar

convencionado desde a meia-noite.

— Serei pontual como um jesuita; mas cumpre que

não esqueçais que me toca o segundo quinhão.

— Não esquecerei, respondeu o padre Gaspar atan

do um lenço preto no rosto para melhor desfigural-o; e

ganhando os arreios, seguiu a passo pela estrada de S.

Roque.

Chegando a este bairro apeou-se junto do cedro de

Carembehy, atou as rédeas do cavallo ao ramo de uma

arvore, inclinou fiara a frente a aba do chapéu, e co

meçou a passear debaixo da sombra do cedro gigantesco.

Negras e pesadas nuvens interceptavam o brilho das

estreitas nessa noite horrorosa, a cuja sombra se ia per

petrar um crime nefando.

Passado algum tempo, os ouvidos sempre attentos

do jesuita ouviram um leve rumor de passos que se appro-

ximavam, e a custo distinguiu dous vultos.

,'KS ANTÔNIO JOAQUIM DA IIOS \

O padre Gaspar ficou desapontado, mas bem depres

sa reassumiu a sua iniperturbabilidade e esperou com au

dácia.

— Será elle? perguntou a voz tremula de um dos

vultos.

— Sem duvida que é, porque lá vejo o seu cavallo

branco; mas eu vou reconhecel-o.

O vulto que falou em ultimo logai'v avançando para

o jesuita, perguntou-lhe pela boca pequena:

— Quem sois?

— - Augusto de Lara, respondeu o jesuita no mesmo

tom.

— Meu filho!

Mamãe! respondeu o jesuita, adivinhando que a sua

interlocutora era a mamãe de Augusto... E Julia..

— Vou buscal-a.

O segundo vulto se approximou e disse com voz

quasi extincta:

-— Augusto!

— Julia! suspirou a seu turno o jesuita cingindo-lhe

a delgada cintura e levando-a para junto do cavallo.

O padre Gaspar saltou sobre a sella com agilidade,

e, extendendo a mão para a moça, ergueu-a sobre a

garupa. O mimoso braço da virgem passou em torno da

cintura do jesuita, que partiu a galope caminho do colle

gio de Araçariguama.

Dous fins tinha o jesuita para adoptar esta marcha

accelerada. Primeiro porque tinha pressa de chegar. Se

gundo porque nessa marcha tornava impossível a troca

de palavras que podiam compromettel-o extemporanea-

mente. O padre Gaspar, sem afrouxar o galope, chegou

ao collegio, entrou pelo quintal e apeou-se perto do edi

fício. Uma porta falsa se abriu, e o padre Ignacio asso

mando nella, perguntou:

— Sois Augusto de Lara e d. Julia de Góes?

— Sim, respondeu o padre Gaspar com voz quasi

imperceptível.

A CRUZ DE CEDRO 59

— Então segui-me para o oratório.

0 padre Gaspar, segurando na mão convulsa de Ju

lia, penetrou e seguiu por um corredor escuro e humido

que conduzia a um subterrâneo até que a voz do padre

Ignacio se fez ouvir.

— Parae, que estamos no oratório.

Os noivos pararam.

—. Augusto de Lara, continuou o padre Ignacio, que

reis casar-vos de vossa livre vontade com Julia de Góes?

— Sim, respondeu o fingido Lara com voz sumida.

— E vós, Julia de Góes, quereis casar-vos com Au

gusto de Lara sem o menor constrangimento?

— Sim, respondeu ella com voz tremula, mas por

que se faz este casamento nas trevas e sem testemunhas?

— E porque as testemunhas não são necessarias^nos

casamentos clandestinos; e JSÍ estamos em trevas é por

que Augusto de Lara me pediu que fizesse isto em segre

do tal que não despertasse as suspeitas de pessoa alguma.

- A noiva calou-se.

O padre Ignacio, ligando as mãos dos noivos e fa

zendo-os repetir as palavras do estylo, recitou uma ora

ção em latim e abençoou este .casamento sacrilego.

— Agora, disse o padre Ignacio, acompanhae-me a

uma câmara, onde passareis o resto da noute, e logo que

amanheça irei eu mesmo pedir o vosso perdão ao capi

tão André.

Os noivos deram algumas voltas mo mesmo salão em

que se achavam, e q padre Ignacio, dirigindo-se a elles.

disse retirando-se:

— E' aqui a câmara. A paz do Senhor seja com-

vosco.

' — Augusto! balbuciou Julia com voz abatida, por

que será que, estando ao vosso lado, sinto apoderar-se

do meu coração um terror que me faz estremecer desde

os pés até á cabeça?

O jesuita não respondeu e, cerrando a misera noiva

em seus braços voluptuosos, conduziu-a para o leito que

)3|| \N lONlo JovOl IM DA IIOSV

elle mesmo havia mandado colloc.u nat|iielle logar e que

mais de unia vez tinha sido o throno dos seus triumphos

libidinosos.

XIV

A velha Isabel (pois era ella tpie acompanhou a Jli

da até o cedro de Carambehy) voltou para a casa do

capitão André, entrou pela porta por que tinha sabido,

deixando-a meio aberta, como estava, o recolheu-se ao

,,-u aposento. Uma hora depois, isto é. quando suppoz

que os seus queridos filhos estariam fora tle perigo, cs-

trugiu a cisa com espantosos gritos. O capitão André

jpparcceu iniincdiataniente com uma luz na mão esquer

da e uma espada deseinbainhaila na direita.

— Que é que temos? perguntou elle, carregando o

sobfolho.

— São ladrões que estão arrombando a porta do

quintal, respondeu ella, tleseobrindo a cabeça.

— Ladrões! exclamou o capitão André, prccipitan-

do-se pina o logar que lhe fora indicado; e, encontrando

a porta forçada, ou antes meia aberta, bramiu como um

leão.

No mesmo instante foi rodeado por seus numerosos

escravos e indígenas, dos quaes destacou uma grande par

te no encalço dos ladrões. Feito isto dirigiu-se para o

aposento de sua filha com o intuito tle tranquilizal-a; e,

achando deserto o seu leito, pensou que ella se tivesse

refugiado no^seu quarto para se collocar sob a protecção

de seu pae. Dirigindo-se apressadamente para o seu apo

sento, surprehendeu-se de não encontrar alli a sua filha;

e procurando-a por todos os cantos tia casa, verificou a

sua evasão. O capitão André, pallitlo tle raiva, furioso

como um tigre, exclamou:

— Foi o infame Augusto de Lara que a raptou. Co

varde! Hei de mandar açoutal-o pelos meus escravos, ar

rancar-lhe os olhos ainda vivo, abrir-lhe o peito -om esta

espada, beber-lhe o sangue <• pisar o seu cadáver! Escra

vos, acompanhae-me.

A CRUZ DE CEDRO 61

0 desgraçado pae seguiu para a casa de Augusto de

Lara e, mandando tomar todas as entradas, bateu á porta

com força. Immédiatamente foi aberta por João Paracy,

que, reconhecendo o capitão André, perguntou-lhe o que

ordenava.

— Onde está teu amo?

— Sahiu a cavallo esta manhã e não voltou até ago

ra. Meu senhor pôde entrar e verificar a verdade.

— Pois traz-me uma luz.

O indígena obedeceu com promptidão. O capitão

André deu uma busca rigorosa em toda a casti, mas fe

lizmente não encontrou a innocente victima do seu ódio.

Voltando para sua casa, ^eTitindo no peito as chammas

do inferno, mandou'escoltas em todas as direcções em

-demanda de sua filha e de Augusto de Lara.

XV

O padre Gaspar, tendo feito, Julia assentar-se na bei

ra da cama, apertou-a contra o peito, e seus lábios, de

negridos pela perfidia, roçaram nos lábios puros da vir

gem noiva. Julia, afastando-o por um sentimento instin-

ctivo, por um feliz acaso a cândida mão sobre a cabeça

do jesuita, e encontrando nella a coroa, repelliu-o vio

lentamente, dando um grito de horror. O Jesuita, impelli-

do com a força do desespero, tropeçou em uma cadeira

que próxima estava, e tombou com grande estrondo. Ao

ruido desta queda surgiu no subteraneo o respeitável pa

dre Ignacio com uma vela accesa na mão. Julia, reconhe

cendo os dous jesuítas, que ella tinha visto por vezes,

tanto na capella do collegio como em sua própria casa,

e, vendo que um delles trajava as roupas do seu amante,

comprehendeu todo o horror de sua negra situação e que

era victima de um trama hediondo, sacrificada em holo

causto nos negros altares da perfidia e da crueldade

monstruosa dos jesuítas.

02 VNTONIO JOAQUIM DA ROSA

Como um anjo cabido do céu ao inferno, a mísera

noiva, cobrindo o rosto com ambas as mãos, deu uni se

gundo grito de suprema agonia, que era o resumo inci

sivo de todas as suas dores. Neste momento ouviu-se o

som da sineta que chamava os jesuítas a matinas, e os

dous consocios se retiraram, levando o padre Gaspar a

chave de segredo do subterrâneo para evitar que o seu

cúmplice quizesse violar o pacto infernal que entre am

bos se havia celebrado.

O padre Gaspar, entrando na sua cella, restituiu á

gaveta da coinmoda as roupas de que se tinha servido.

A luz synipathica da manhã penetrou por uma es

treita fenda praticada na parte superior da medonha

crypta, em que jazia a infeliz Julia, e se foi insinuando

mysterios.i e melancholica nesse covil manchado tantas ve

zes por crimes horrorosos. A essa luz mortuaria e duvido

sa a misera prisioneira distinguiu sobre uma mesa alguns

pães, carnes frias, uma garrafa de vinho e outra de água,

e compreendeu que o seu captiveiro tinha tle se prolongar

por tempo indefinido.

Os pensamentos dilaceradores que passaram em tro-

pel no seu cérebro como chammas de fogo não tentamos

reproduzil-os, porque não daríamos sinão um quadro des

corado da mais afflicta e deplorável de todas as situa

ções.

Deixemol-a, pois, entregue a essas torturas moraes e

respeitemos essas lagrimas de sangue com que a filha do

capitão André ensopa a terra humida do subterrâneo do

collegio.

XVI

Na tarde desse dia nefasto o padre Gaspar despediu-

se de Augusto de Lara para ir levar Gonçalo Castanho á

casa de André de Góes, fazel-o ratificar a renuncia que

fez da mão de Julia e contractar o dia do casamento da

noiva repudiada com o pobre Lara, que ficou embalado

A CRUZ DE CEDRO 63

em doces esperanças, ao mesmo tempo que a sua adorada

Julia, naquelle mesmo edifício, vestia desolada as mais

acerbas lagrimas do coração.

Ás 7 horas o scelerado jesuita, voltando á sua cella,

exclamou tragicamente:

— Meu filho! Que horrível desgraça! tudo está per

dido!

— Como? bradou Augusto pallido de susto.,

— Ai! não tenho animo de vol-o dizer!

— Dizei-o! exclamou o desgraçado mancebo, apertan

do em suas mãos como em um torno de ferro o braço do

jesuita, dizei-o em duas palavras: eu vol-o conjuro em no

me do céu! .i-

—"Gonçalo Castanho raptou a tua Julia, respondeu o

jesuita laconicamente para se ver blvre da mão de ferro

do mancebo.

—Bem! está bem! vou felicital-o por esse triumpho!

disse o joven Lara com calma assustadora, empurrando

violentamente o jesuita de encontro á porta.

Augusto de Lara, rasgando com as unhas a roupeta

de estamenha, -dirigiu-se para a commoda, vestiu a sua

roupa e desappareceu como um relâmpago. O padre Gas

par deu uma gargalhada infernal, tomou um copo de vi

nho, metteu na algibeira um vidrinho que tirou de uma

tjaveta de "segredo da commoda e dirigiu-se para o subter

râneo. Penetrando nessa escura masmorra, collocou sobre

a mesa uma placa de bronze em que ardia uma vela de

cera; e, vendo que Julia só se havia servido da água:

— Minha filha! disse elle com voz branda e melan-

cholica, porque não haveis tomado alimento algum?

— Porque me bastam lagrimas, vil carcereiro! respon

deu Julia com altivez.

— Fazeis mal, porque estando extenuada de forças,

mal podereis resistir ao choque de novas desgraças que

acabam de pesar sobre os entes que vos são mais caros.

C,| \NlONIO JOVQIIM DV nosv

— Matastes o meu coração, desprezível assassino, e

ja não tendes força para auginentar o meu soffi i incuto!

— Vosso pae. continuou o jesuita, attribuintlo o vosso

rapto a Augusto de Lara. apoderou-se delle. e arrancou-

lhe «s olhos ainda vivo...

— Ah! exclamou Julia, vergando a cabeça sobre o pei

to com inexprimivel angustia.

Depois amarrou-o em quatro cavallos bravos, para

que se não escapasse, si fosse atatlo a um s*>; mandou sol-

tal-os em tlirecções oppostas, e eatla um levou uma parte

tios membros do infeliz Lara!.,.*

— Meu Deus! exclamou a moça, Gritando tle horror.

— Seus membros jazem dispersos pelo campo, e são

profanados e devorados pelos cães!...

— Basta, Satanaz! Basta! exclamou Julia, estorcendo-

se no desespero da sua tlôr e arrancando os cabellos.

— Ainda não sabeis tudo. O capitão-mór Bernardo Ro

drigues Chassim, apenas teve noticia de tão bárbaro assas

sinato, mandou prender e carregar de ferros o capitão

André. O desgraçado velho quando lhe puzeram ao pesco

ço uma grossa corrente, foi acommettido de uma apople-

xia fulminante e eahiu exaninie!...

— Meu pae! balbuciaram os lábios convulsos da míse

ra Julia.

— Já vedes, pois, minha querida menina, que nenhu

ma protecção vos resta sobre a terra sinão a minha.

— E essa, respondeu Julia com altivez nobre, eu a

repillo e voto ao mais soberano despreso.

Os olhos da virgem desferiram lampejos de fogo: suas

lagrimas estavam estancadas, porque o excesso da dôr as

refluiu para o coração. A desditosa ergueu-se com attitudc

magestosa e iracunda e proseguio:

— Infame jesuita! assassinaste meu pae!... assassi-

naste meu irmão., meu amante... meu esposo!... Pois

bem! assassina também a esta desgraçada, e eu te perdoa-

A CRUZ DE CEDRO 65

rei todos os teus crimes... Eis meu peito.... crava- nelle

o teu punhal, tigre sanhudo!... Eu vol-o peço de joelhos

e em nome do céu!

— Pois bem! respondeu o jesuita, tirando um vidro

da algibeira e collocando-o sobre a mesa. Já que proferis

a morte á vida, o túmulo á felicidade, eis aqui este vidro

que contém um veneno subtil e enérgico, que em breve

vos fará reunir ao vosso pae e ao vosso amante.

— Obrigada! mil vezes obrigada! disse Julia ainda de

joelhos, erguendo ambas as mãos para o céu.

O sino grande do collegio fez resoar por três vezes

de espaço em espaço a sua voz lugubre e monótona. 0

padre Gaspar, ouvindo esse signal, que chamava todos os

jesuítas com urgência a grande sala do capitulo, qualquer

que fosse a distancia em que se achassem, comtanto que o

ouvissem:

— Diabo! exclamou elle, mordendo os beiços com in-

descriptivel desapontamento.

E, rodando sobre os calcanhares, fechou a porta e su

biu a passo dobrado para a sala do capitulo.

Quando chegou alli já achou reunidos todos os jesuí

tas. O reverendo reitor, fazendo um gesto de attenção,

disse:

— Ordeno-vos que vos encerreis desde já nas vossas

celtas, e que deltas não vos arredeis um passo sem ordem

minha, porque a qualquer hora da noite precisarei de vós

para o serviço de Deus.

, Todos os jesuítas abaixaram a cabeça, em signal de

obediência, e desfilaram como uma tropa bem disciplina

da em frente do seu general.

— Pouco depois o reitor passando pela cella do padre

Gaspar bateu á porta devagarinho. O jesuita abriu-a com

precaução.

Acompanhae-me sem fazer o menor ruido, disse-

lhe o reitor ao ouvido.

Os dous jesuítas foram para a cella do reitor e este

fechou a porta por dentro.

titi ANTÔNIO JOVOtlM DA 1IOS \

XVII

Augusto de l.a.a. cliemndo a Carembehy. dirtgiu-se^

e entrou impetiiosameiite na casa do capitão (ionçalo, 11

quem disse com tom insolente e provocador:

-- Venho tributar as mais sinceras homenagens' ao

>alor do intrépido capitão que sabe alcançar bellos trium-á

phos á sombra tia noite!

— Que triiimpho é esse? perguntou o capitão Gon-''

calo com surpresa.

— Outr'ora, proseguiu Augusto sem attender á per

gunta que lhe fora dirigida, os amantes esforçados procla

mavam a belleza de suas amadas nas justas e torneios e,

expondo seus dias com denodo nessa arena dos bravos,

mostravam-se dignos da mão que adoravam. Outras vezes,

atravessando os torridos e arenosos desertos da Syria, lá

iam á Palestina para medir suas armas com os fortes

musulmanos e conquistar coroas de louros inimarcessiveis

para deporem aos pés das damas do seu pensamento. Hoje,

os cobardes se apoderam das amantes que os desprezam,

levando por couraça as sombras tia noite e a perfidia por

broquel. Não é assim, valente capitão?

— Mancebo tresloucado! vejo nas vossas palavra!

uma insinuação, ou antes um insulto grosseiro. Exijo pe-

reinptoriamente uma explicação formal, disse o capitão

tioncalo. rangendo os dentes de raiva.

— Si não és cobarde, eu t'a darei daqui a meia hora

com a espada em punho, junto do cedro de Carembehy,.

em uni combate de morte.

— Acceito! respondeu Gonçalo Castanho, 'acceso em

cólera.

— Maldição e vergonha aquelle que faltar! disse- Au

gusto de Lara.

— E maldição e vergonha ao primeiro que disser has

ta! respondeu o dono da casa, apontando para a porta

com yesto solemne.

A CRUZ DE CEDRO 67

XVII

Depois que o padre Gaspar se retirou do subterrâneo,

a infeliz Julia, como que áccordando de um sonho pa

voroso, começou a andar a passos largos pelo salão como

allucinada. Fitando por acaso os seus olhos chammejan-

tes sobre o vidro que alli se achava, recordou-se que elle

continha o tóxico de morte que o jesuita lhe havia dado,

e exclamou:

— Morrer quando me sorria a aurora da primavera!

Quando o amor dourava a rosea manhã dos meus dias!

Separar-me para sempre de meu velho pae e do meu que

rido amante! Trocar a grinalda de flor de laranja pela co

roa de cypreste! Oh! eu não quero morrer. Não quero tro

car "as doçuras do thalamo nupcial pelos gelos do túmulo!

Não! eu quero viver... viver para elle... Mas oh!... pro

seguiu. ella, estremecendo, elle morreu morte affrontosa,

e seus membros jazem abandonados e dispersos pelo cam

po, como si estivessem em terra de Mouros!... e meu

pae... expirou em uma corrente, ludibriado, escarnecido!

Nada mais me'resta neste mundo ingrato, e eu vou re

unir-me a ell.es á face do Eterno!

A desgraçada segurou no vidro com mão febril, mas

segura, levou-o á bocca, e bebeu de uni gole o liquido

que elle continha. *

— Como é amargo! disse ella desviando do vidro os

olhos com horror: e pondo-se de joelhos, ergueu seu pen

samento ao'throno de Deus, orando não só por ella, mas

também por seu pae e seu amante.

De repente viu surgir ante seus olhos o vulto de um

jesuita, e ella* erguendo-se, e refugiando-se no fundo do

subterrâneo, exclamou:

— Retira-te, Satanaz! Não venhas amargurar ainda

mais os últimos momentos de uma moribunda!

— Minha filha!... disse uma voz grave e doce, não

reconheces o indigno ministro de Deus por entre os ca-

bellos alvejados pelos annos!

•iN v.vro.Nio JoVOlIM l>\ llosv

— Lsta voz!... exclamou Julia soliresaltada.

O jesuita deu alguns passos para a mesa onde ardia

a vela e collocou-se dentro do circulo mais luminoso paru

que suas feições pudessem ser reconhecidas.

— ti padre Belchior de Pontes! exclamou Julia, cor

rendo para elle c ajoelhando-se aos seus pés. Perdoae! Não

sabia que ereis vós. que sois tão bom e cujas virtudes

são proclamadas de bocca em bocca...

— Não falemos de mim, pobre e humilde peccador;

falemos de vós, de vossa liberdade...

— E' tarde, meu patlre! Agora só podeis tlar-me a ab

solvição da morte e cerrar meus olhos, que em breve se

fecharão para este mundo.

— Porque?

— Porque estou envenenada.

— Envenenada! Meus Deus! Será possível?

— Eis ali o vidro que continha o veneno.

O padre Belchior de Pontes pegou no vidro, aspirou-

lhe o cheiro e, tornando a collocal-o no mesmo logar:

— Minha filha, disse elle, levanta-te, que não ha tem

po a perder. E' mister que te ponhas a '.caminho c que

voes nas azas da diligencia para salvar a vida tle Augusto

de Lara, que corre imniinente perigo.

— E* tarde, meu padre, porque elle já foi barbara

mente assassinado.

— E' falso, respondeu o veneravel jesuita.

— Eu creio em vossas palavras como em Deus, disse

a moça, affagando com prazer uma doce esperança. Mas

então tudo isto é uin sonho, não é assim?

— Não é sonho, minha pobre filha, é a realidade do

crime e da perfidia. Ouves-me. 0 padre Gaspar, tendo pre

so no collegio a Augusto de Lara, vestiu a sua roupa para

melhor illudir-te e raptar-te. Teu pae attribuiu esSe rapto

ao ínnocente Lara, que, confiando no padre Gaspar, o ha

via iniciado em todos os seus segredos. O patlre Gaspar,

querendo destruir áquelles que podiam servir d.- obstáculo

aos seus planos criminosos, referiu insidiosainente a A.U.

A CRUZ DE CEDRO 69

gusto que fostes raptada pelo capitão Gonçalo. O joven

amante, querendo vingar esta affronta, desafiou ao sup-

posto raptor para um duello de morte junto do cedro

de Carembehy. Desse duello resultará infallivelmente a

morte de um, ou talvez de ambos, a perdição de outro, que

fugirá para escapar da acção da justiça e a morte de teu

pae, que definha de dôr e dè vergoha, ficando o padre Gas

par livre de todos os obstáculos. Daqui a pouco as espadas

dos dons valentes jovens se cruzarão encarniçadas junto

ao cedro de Carembehy, e urge que voes para sálval-os,

para evitar que se commettam novos crimes. Um cavallo

te espera á porta deste subterrâneo. Segue-me.

Julia acompanhou o padre Belchior e, montando a

cavallo partiu como o raio que fende as nuvens.

XIV

Ao approximar-se do cedro de Carembehy, Julia ou

viu o tinir de duas espadas que se cruzavam com golpes

repetidos. Arrojando-se sobre os combatentes, bradou:

— Suspendei.

As duas espadas ficaram suspensas sobre a cabeça da

virgem.

— Julia*! exclamaram a um tempo os dous mancebos.

— Ouvi-me, continuou ella com voz enfraquecida, ou

vi-me porque poucos são os momentos de vida que me

restam.

Os dous rivaes, que ainda ha pouco affrontavam a

morte com o valor tão commum entre os Paulistas, estre

meceram a estas palavras. A moça, cuja voz se ia enfra

quecendo gradualmente, continuou:

— A causa deste duello é injusta, ambos vós estaes

innocentes. Quem me raptou foi o scelerado padre Gaspar.

— Elle! bradou Augusto de Lara, arrancando os ca-

bellos. Elle, que me affirmou que foi o capitão Gonçalo!

— Elle mesmo, vestido com as tuas roupas para me

lhor illudir-me.

711 ANTÔNIO JOAQUIM DA ROSA

— Ah! cabe tamanha perfidia no coração de um je

suita! exclamou Augusto, espumando de raiva.

— Conduziu-me ao subterrâneo do collegio, onde ás

escuras casou-se commigo...

Augusto de Lara rugiu como o tigre dos desertos que

vê matarem-lhe o filhinho muito amado.

— Depois, não podendo satisfazer os seus negrbs pro-

jectos pela resistência que lhe oppuz, induziu-te a desafiar

ao capitão Gonçalo c envenenou-me para acabar com to

das as suas victimas!

— Envenenou-te! exclamaram os dous rivaes horrori

zados.

— Envenenou-me, sim! E si não fora o virtuoso padre

Belchior de Pontes, que me abriu as portas do subterrâ

neo, que me forneceu um cavallo, e que guiou meus passos

para este logar sinistro, morrerieis como eu morro...

— Julia! que tendes? exclamou Augusto com pallidez

tle defunto.

— Meu Deus!... disse ella com voz quasi extincta,

é o gelo da morte... é o veneno que me mata... Aperta-

me contra o teu peito, meu irmão... para que ao menos

tenha a ventura... tle morrer... nos teus... braços!...

A cabeça da virgem pendeu sobre o peito de Augusto

de Lara e exhalou o ultimo sopro da vida em um débil

suspiro.

— Julia! exclamou o infeliz Augusto, soluçando e ba

nhando o rosto da virgem com uma torrente de lagrimas.

Passado este primeiro assomo, o joven Lara extcndeu

sobre a relva macia o corpo inanimado da sua adorada

Julia, e, dirigindo-se ao capitão Gonçalo:

— Senhor! disse elle, fui eu que vos provoquei; fui

eu que vos insultei grosseiramente levado por erro a que

me induziu o padre Gaspar, o mais vil e o mais pérfido

de todos os homens. Por aquella victima innocente que alli

jaz, fria e exangue, peço-vos mil perdões e presto ao vosso

valor as devidas homenagens.

A CRUZ DE CEDRO 71

— Nada tenho que vos perdoar, nem tenho de vós

o menor resentimento, pois conheço que em tudo isto an

dou o dedo desse infame e desprezível jesuita; e tomo a

parte que me toca na affronta dirigida a essa infeliz, cuja

mão me estava promettida. Àcreditae, Augusto, que si eu

soubesse qukes eram as affeições de Julia, não teria accei-

to a proposta do capitão. André e seria o primeiro a in

terceder'pelo vosso casamento. Agora dizei-me o que exi-

gis da minha amizade, certo que vos dirigis a um cava

lheiro leal e sincero, disse Gonçalo Castanho, apertando a

mão de Augusto de Lara.

— Obrigado, meu amigo! Acceito os vossos bons offi-

cios, e vos rogo que passeis pela minha casa e ordeneis

ao pequeno Vicente Paracy que me traga com a maior ur

gência um laço, um machado e uma enxada. Ao romper

d'alva, peço-vos que vos dirijaes á casa do capitão André,

e que procureis enxugar as suas lagrimas.

Dizei-lhe que eíi estou innocente; que foi o padre Gas

par o raptor da sua filha; que a envenenou e cortou esta

flor de innocencia que ainda ha pouco se erguia cheia de

vida no jardim das esperanças; dizei-lhe que o seu corpo

angélico dorme o somno da eternidade debaixo deste céu,

onde outr'ora o amor puro tantas vezes nos uniu, para

que o seu corpo angélico não seja profanado nesse covil

immundo; dizei-lhe finalmente que o infeliz Lara não verá

levantar-se o sol de amanhã.

— Juro cumprir quanto exigis de minha amizade, res

pondeu o capitão Gonçalo, apertando ainda uma vez a

mão do mancebo.

Tinham decorrido apenas dez minutos quando compa

receu o indígena Vicente Paracy, que era um rapaz de

quatorze annos, muito vivo e intelligente. Augusto, rece

bendo os instrumentos que elle trouxe, disse-lhe:

— Vôa ao pasto do capitão André e traze-me o pri

meiro cavallo que encontrares.

O joven Lara começou a abrir uma cova junto do ce

dro de Carembehy, e foi tal o ardor com que trabalhou,

~,'l VNIONIO JOAQl IM DA lios \

que, quando voltou o indígena com o cavallo, ja eslava

quasi concluída.

Augusto deu-lhe rapidamente algumas instruiçoes.

O indígena partiu a galope em direcção ao collegio.

Augusto de Lara acabou de abrir a cova, cortou um

dos braços do cedro, improvisou uma cruz tosca e imper

feita, e plantou-a na margem da sepultura que havia ca

vado. Depois ajoelhando-se junto do cadáver de sua aman

te, tlepositou respeitosamente um beijo tremulo nos lábios

enregelados da sua Julia e, extendendo o braço para a Cruz

de Cedro, disse:

— Por aquelta cruz ha pouco levantada ao lado de

uma sepultura ainda vasia, juro que serás vingada!

O triste mancebo se ergueu banhado de suor frio, de

positou o cadáver de sua amada na sepultura, cobriu-a de

terra humida de pranto, e depois procurou a espada, que

havia cahido da mão quando Julia se interpoz inesperada

mente entre elle o seu adversário, embainhou-a e foi col-

locar-se debaixo do frondoso cedro com o pescoço erguido

como o ganço do Capitólio, e attento ao menor ruído.

XX

O reitor, tendo fechado a porta da sua cella, convidou

ao padre Gaspar para rezar conjunetamente com elle. O

jesuita mordeu os beiços, tomou o breviario com indizi-

vel constrangimento e, começou a rezar. Seus lábios se

moviam automaticamente, mas seu coração não tinha a

menor parte nessa reza, porque o seu pensamento vagava

pelo subterrâneo do collegio, e alli com os olhos d'alma

via a sua desolada victima; examinava attentamente o ef-

feito que tinha produzido o liquido que lhe deixara em um

vidro; depois dirigia-se a Carembehy, assistia ao dueUo de

Augusto de Lara com o capitão Gonçalo, via-os lançados

por terra, banhados em um mar de. sangue, e expirando

um após do outro entre horríveis angustias. Assistia como

testemunha invisível a este medonho espei-taciib» com <>

CRUZ DE CEDRO 73

coração transbordando de um prazer satânico. Depois vol

tava para o subterrâneo, e fruia os gosos mais voluptuo

sos com a calma do scelerado!...

O padre Gaspar tinha pressa de concluir a reza; o

reitor peta sua parte desejava procrastinal-a e o inter

rompia a cada instante com as mais frivolas questões.

Finalmente,-concluída esta reza, que durou quasi duas

horas tão longas como dous séculos para o padre Gaspar,

quando elle sqppoz que ia soar a hora da sua liberdade,

tão avidamente desejada, o reitor, dirigindo-lhe a pajavra

com gesto mysteriôso; disse:

>— E' de suppôr que os nossos irmãos a estas horas,

estejam entregues nos braços de pesado somno.

— Sem duvida, respondeu o padre Gaspar, bocejando;

e até eu, que estou acostumado a resistir longas noites de

insomnias, não sei porque me acho assás fatigado e sinto

necessidades de repousar.

— Si alguém veiu éscutár-nos, continuou o reitor sem

attender aos bocejos e ás reclamações do seu interlocu

tor, é provável que já exgotasse a sua curiosidade, ouvin

do a nossa longa reza.

— E' mais que provável.

-— Todavia, como cautela e caldo de gallinha não fa

zem mal a ninguém, nada se perde em recorrer á prova

real.

O reitor tirou as sandálias, pôz-se nas pontas dos pés,

e avançando para a porta com passos de lobo, abriu-a de

improviso e tornando a dar volta á chave:

— Não ha espiões, disse elle, voltando e assentando-

se em frente do outro jesuita. Podemos conversar agora.

— Estou ás ordens de vossa reverencia, respondeu o

padre Gaspar, mordendo os beiços até arrebentar sangue.

O reitor tomou attitude mysteriosa de um conspirador

e fitando seus olhos de lince nos olhos scintillantes do

seu subordinado, disse:

— Trata-se de uma vasta conspiração que tem sua

sede na cidade celeste, nessa urbs mundi, e que tem rami-

74 ANTÔNIO JOVQlTM DA IIOSV

fieações e i«otlerosas adbesões em toda a Itália, nos pai-

zes banhados pelo Rhcno. na França, Hespanha, nas ca

pitanias do Brasil e nas províncias hespanholas da Ameri

ca, t) cabeça dessa conspiração e o geral da companhia de

Jesus em Roma. Os seus braços são os numerosos jesuítas

espalhados por toda a parte. Esta magna revolução tem

de mudar a face de todo o orbe catholieo.

Dous grandes podercs existem sobre a terra; o poder

temporal, ou civil, o poder espiritual, ou da egreja; ambos

são assás fortes e poderosos, ambos se temem e se detes

tam, o mais forte deve absorver e ánniquilar o mais fra

co. A egreja tem extendido sorrateiramente o seu poder,

creando por toda a parte tribunaes de consciência com o

nome de inquisição do Santo Officio, a cuja frente se

acham os mais sagazes e ardilosos tios seus agentes; os

reis da terra estão sujeitos ao poder invisível da inquisi

ção; os calabouços, as torturas e as fogueiras do Santo Of

ficio têm levado o terror a todos os ângulos da terra; o

0

poder civil começa a receiar-se do poder da egreja e, não

ousando combatel-o tle frente, porque teme ser esmagado,

vai pouco a pouco cerceando as suas prerogativas e so

lapando entre as trevas da noite o poder desse colosso que

o inquieta e que pôde esmagal-o. Cumpre, pois, erguermos

a luva que nos atiram timidamente pelas costas, antes

que, depois de nos enfraquecerem, ousem arrojal-a sobre

a nossa cara. Os reis da terra dispõem dos exércitos, isto

é, da força material automática e bruta; nós dispomos de

uma phalange assás numerosa de bravos, forte pelas suas

convicções, invencível pela sua intelligencia. A força bru

ta deve ceder á intelligente neste combate de gigantes,

porque a intelligencia é a rainha do universo.

O brado dessa grande revolução, que ha de regenerar

o poder da Egreja, deve partir do novo mundo, e reboar

nas plagas da velha Europa, magestoso como as ondas

soberbas do caudaloso Amazonas, o soberano dos rios do

inundo, que fertiliza as terras abençoadas do Brasil e que

ha de vir u ser uma grande artéria de civilização e de ri

queza.

A CRUZ DE CEDRO 7o

As autoridades civis serão depostas e substituídas pe

los membros mais hábeis e dignos da nossa santa compa

nhia.

Os mais altos cargos serão dados áquelles que maiores

serviços tiverem prestado a esta santa cruzada. No dia em

que chegar á Europa esta noticia, o geral da nossa compa

nhia será proclamado rei dos reis; os monarchas baixarão

dos seus thronos, e a supremacia dos jesuítas se exten-

derá por toda a parte. O padre João de Deus, que veiu

como agente desta conspiração para. soprar na America o

fogo sagrado da mais santa das revoluções, de volta do

Prata, acaba de dar a alma a Deus no collegio de S. Paulo,

tendo apenas tempo de revelar ao rev. reitor, o sábio e ve-

neravel padre Raphael Machado, o resultado da sua santa

missão.

E' pois de máxima urgência mandar a Roma um en

viado extraordinário para noticiar a morte do padre João

de Deus; dar conta da franca e leal adhesão que encontrou

nos domínios hespanhoes e nas terras do Brasil e instar

para que seja designado com toda a brevidade o dia do

rompimento afim de se aproveitar da effervescencia po

pular e da grande indisposição em que se acham todos os

espíritos, não só pelos donativos forçados, pelas espolia

ções e monstruosos latrocínios dos governadores em favor

e em nome da coroa de Portugal, e ainda pelo profundo

resentimento que deixou em todos os corações as scenas

sanguinolentas do Capão das Traições e do rio das Mortes,

nas Minas-Geraes, onde Amador Bueno da Veiga, comman-

dante do exereito paulista, Francisco Bueno, e sargento-

mór Luiz Pedroso de Barros e alguns outros, á frente de

um punhado de bravos e a despeito das ordens do gover

nador Antônio de Albuquerque Coelho, praticaram os mais

assombrosos feitos de bravura, que fariam inveja aos Cé

sares, aos Alexandres, aos Scipiões, aos Annibaes, e que

ornam de louros eternos e immorredouros a fronte altiva

dos invictos paulistas.

Mas si esta grande revolução tem de trazer incalcu

láveis vantagens á nossa santa ordem, dando-nos o gover-

/ti XNIONIO JOVQIIM DA lios \

no do mundo, cumpre todavia não esquecer qu> esse so

nho dourado pôde ser destruído em um momento si por

ventura uma indiscreção, unia circuinstancia qualquer re

velar os nossos projectos extentporaneamente. Seutlo alta

mente imprudente confiar ao papel um negocio de tal ma

gnitude, o nosso sábio reitor, fazendo o mais alto apreço

do vosso zelo, da vossa illustração, da audácia e subtileza

tom que levaes ao cabo as mais arrojadas empresas, es

colheu-vos para esta perigosa e sublime missão, reeoin-

mendando-vos desfarte a alta protecção do supremo eons-

pirador.

— Estou prompto! respondeu o padre Gaspar com

enthusiasmo, os olhos scintillantes de ambição e comple

tamente esquecido da sua victima do calabouço.

— Ireis amanhã, proseguiu o reitor, para receberdes

as ultimas ordens do padre Raphael, e seguirdes para Lis

boa na frota que tem de largar de Santos nestes quatro

dias.

XXI

Alguém bateu á porta da cella do reitor.

— Quem será? disse elle, levantando-se com vivacida-

de. Oh! continuou elle entreabindo a porta, sois vós, re

verendo porteiro? Que novas temos?

— l'm pequeno indígena que pede licença á vossa

reverencia para um negocio de muita urgência.

De onde vem?

— De Carembehy.

O padre Gaspar estremeceu.

— Que entre, disse o reitor.

O indígena entrou immediatamente.

— De quem sois? perguntou-lhe o reitor.

— Do sr. capitão André de Góes.

O padre Gaspar estremeceu pela segunda vez.

— A que vindes?

— Meu senhor, respondeu Vicente Paracv, estava mui

to tloente de desgosto por terem furtado a senhora moca.

A CRUZ DE CEDRO 77

O sr. capitão Gonçalo estava no quarto de meu amo agora

de noite, quando entrou de repente o sr. Augusto com uma

espada na mão e desafiou-o. O sr. capitão Gonçalo pegou

da espada de meu ítmo, que lhe disse que também o vin

gasse, e sahindo para a sala puzeram-se a brigar.

A testa do padre Gaspar estava inundada de suor frio,

e o seu coração batia com violência, como que querendo

rasgar-lhe o peito.

— O sr. Augusto cahiu morto, atravessado pela espa

da, e o sr. Gonçalo ficou muito ferido, e já está sem fala.

O padre Gaspar respirou.

— Com isto meu amo se assustou muito, e também es

tá para morrer; por isso me ordenou que viesse a galope,

e que pedisse á vossa reverencia que mande o seu confes-

sor para ajudal-o a bem morrer.

— O confessor delle sois vós, padre" Gaspar.' pergun

tou o reitor.

— Sim... senhor... respondeu elle, hesitando.

— Rev. porteiro, mande ajaezar o melhor cavallo que

estiver na estrebaria. Rapaz, dize a teu amo que já lhe

mando o seu confessor.

O porteiro e o indígena desappareceram como duas

sombras.

— Senhor, disse o padre Gaspar enxugando o suor

que lhe cahia em bagas pelo .rosto, tendo de seguir ama

nhã para S. Paulo, preciso de algum repouso, e siípplico

encarecidamente a vossa reverencia que me dispense des

ta commissão.

— Que?! Não sabeis que o capitão André de Góes

é um dos mais ricos proprietários de Carembehy, e que as

suas riquezas nos tocam de direito, visto que sua única

filha deve ser desherdada por ter manchado o lar paterno

com uma fuga ignominiosa?

— Mas pôde ir outro...

— Outro! redarguiu o reitor. Qual outro desses estú

pidos é capaz de desempenhar uma tarefa desta ordem?

Como hesitaes de prestar mais um serviço relevante á

7S VNIONTO JOAQUIM DA HOS V

nossa Ordem, e de vos apresentar com mais uma valiosa

recomniendação ao padre Raphael?

— Mas... balbuciou o padre Gaspar.

— Ordeno-vos, que sigaes para Carembehy sem per

da de tempo, disse o reitor com autoridade..

— Obedeço, respondeu o jesuita, levantando-se.

O padre Gaspar passou pela sua cella, tomou o cha

péu, e descendo para o pateo encontrou alli o reitor, que

foi para fiscalizar a sua partida.

— Uma vez que estão mortos, que tenho eu de arre-

ceiar-me delles? disse çomsigo mesmo o padre Gaspar,

montando a cavallo e partindo a toda brida para Carem

behy.

Ao passar defronte do cedro de Carembehy, Augusto

de Lara atirou-lhe o laço com mão certeira e o desmontou

do cavallo.

XXI

— Quem sois? perguntou Augusto de Lara para re

conhecer o seu adversário.

— Oh! é a voz de Augusto, e eu sou victima de uma

miserável insidia! disse elle, desemmaranhando-se do laço,

levantando-se c disparando um tiro de pistola.

— Erraste o alvo, miserável assassino! disse Augusto.

— Nunca ando descalço, respondeu o padre Gaspar.

A detonação de um segundo tiro resoou no espaço so

litário, quebrando a solidão da noite.

— Tornaste a errar, beati&imo padre! Toma cuidado,

que o inferno parece que começa a abandonar-te!

— Tenho ainda um recurso para oppôr aos vossos

grosseiros motejos, respondeu o jesuita fazendo brilhar

a lamina de um punhal e arremessantlo-se furioso sobre o

seu antagonista.

Augusto tle Lara desviou o corpo e, dando um golpe

certeiro, abriu largo talho no braço direito do jesuita. O

punhal saltou da mão do padre Gaspar, que rugiu como

o tigre indefeso, que vê exgotados todos os recursos da re-

A CRUZ DE CEDRO 79

sistencia, e não lendo outra taboa de salvação, voltou so

bre os calcanhares para se pôr em fuga. Ao dar esta vol

ta precipitada seus pés tocaram na raiz de um tronco, e,

perdendo o equilíbrio, cahiu em terra. Augusto de Lara,

pisando-lhe sobre o peito com o pé esquerdo e a ponta

da espada erguida para o céu, exclamou:

— E' vivo. .. vivo que eu te quero, jesuita do in

ferno !

XXII

O padre Gaspar vendo-se em tão criticas conjunctu-

ras recorreu ao emprego de meios brandos para arredar

o golpe de morte que pendia sobre sua cabeça, e disse:

— Mancebo! poupa-me os dias que eu te darei mais

que a vida. -'-"*".

— Satanaz! Sabe que recuso a vida, e felicidade e

o próprio Céo, si para penetrar nos seus humbraes ne

cessitasse de um só de teus favores.

— Mas vós ignoraes onde se acha a vossa Julia, e

eu, somente eu vol-a posso restituir com toda a sua pure

za virginal. O golpe que atravessar o meu peito irá ferir

o delia, que morrerá sem que ninguém saiba onde se

acha, e vós sereis b seu assassino.

— Quereis ganhar tempo para escapar á horrorosa

e inaudita vingança que eu vos preparo?! Não, monstro

assassino! A infeliz Julia já não está em vosso poder,

nesse horroroso calabouço onde se hão sumido tantas.

victimas!

— Onde pois está ella? perguntou o jesuita com

accento desfallecido, vendo perdida a ultima esperança

de salvação.

— Alli... naquella sepultura... vil assassino!

— Desgraçado! vós a sepultastes viva! bradou o je

suita com sorriso infernal.

— Viva! exclamou Augusto, sentindo um calafrio

universal impossível de descrever-se.

sii \NTiiNio JOAQTIM l»A ItOSV

— Sim, viva!

Não! e ainda um ardil a que recorres, porque tu

a envenenaste e a sua morte foi o resultado do veneno

que lhe propinaste.

Não a envenenei: esctitae-me. Vendo que Julia

oppunha uma resistência cada vez mais heróica aos meus

desejos, para triuniphar dessa vontade de ferro, dei-lhe

um narcótico, cuja acção devia produzir uma morte appa-

rente, e fostes vós, misero Lara, tpie sepultastes viva a

desventurada Julia!

— Ah! meu Deus!., fui eu que a matei! exclamou

Augusto, quasi tresvariado.

— E eis aqui seu pae para vingal-a! trovejou o ca

pitão André de Góes com'a espada em punho, o qual

tendo andado em busca do raptor de sua filha, havia

voltado á sua casa ha poucos instantes e alli recebera

um bilhete éscripto pelo padre Gaspar em que lhe de

nunciava que encontraria Augusto de Lara em eâsa de

Gonçalo Castanho, onde soube que elle havia ficado jun

to ao cedro de Carembehy.

— E eis-aqui o criminoso, disse o infeliz mancebo,

abaixando a cabeça ante a figura iracunda de seu ve

lho pae adoptivo, deixando cahir a espada e cruzando

os braços com a impassibilidade do idiota.

— Morre, Judas! exclamou o capitão André, atra

vessando o peito do nobre mancebo.

Augusto de Lara deu dois passos cambaleantes e cahiu

examine sobre a sepultura de Julia. O sangue que lhe

borbulhou o peito foi ensopar a terra da morte já humi-

da de lagrimas. ..

Emquanto o capitão André de Góes derramava o san

gue innocente do mal-aventurado Augusto, o padre Gas

par esgueirou-se por traz do corpulento cedro e poz-se

a observar esta scena horrorosa como espectador. Cr ca

pitão André, afastando com horror o cadáver de Augus

to, começou a cavar com as unhas a não pisada terra da

sepultura e em breves momentos deu com um corpo e o

puxou para fora com braço febricitante.

A CRUZ DE CEDRO 81

A lua, rompendo neste momento através de negras

sombras, dardejou seus pallidos raios sobre o semblante

desfigurado da virgem de Carembehy.

— Minha filha! exclamou o misero pae, abraçando

Julia em nm desespero que tocava á meta do delírio.

Vinguei-me e vinguei-te! Já nada me prende a esta terra

maldita 1

O desditoso ancião, firmando os copos da espada

no chão, alagado do sangue innocente de seü filho de

adopção, arrojou o peito contra a ponta do ferro as

sassino e cahiu soluçando entre os cadáveres dos dois

amantes.

O padre Gaspar sahindo de traz do cedro cruzou

os braços sobre o peito, contemplou os três cadáveres

por alguns instantes em morno silencio e, depois, com

Voz sardonica e riso satânico, disse:

— Ousaram reSistir-me, morreram: e morreram mor

te violentai Elle cheio de vida e mocidade, elle que so

nhava um porvir de venturas nos braços de sua amante,

elle que tinha um coração de fogo e um braço de ferro,

eil-o alli prostrado -como o altaneiro jequitibá das ma-

gestosas florestas brasiíeiras, que o rijo sopro dos fura

cões fez tombar sobre a torrente do deserto que se des-

penha dos alcantis da montanha, eil-o alli mudo como

a estatua do silencio, frio e gelado como o pólo do nor7

te! Ella, que em suspiros de virgem, nos anhelos do co

ração abrazado, nas chammas intensas de amor sem li

mites, sonhava um éden na terra, ella, que era tão meiga

como o tepido suspiro da briza, tão melancholica e ter

na como o raio da lua, tão bella como o anjo sonhado nos

sonhos da imaginação do poeta, eil-a também alli, frio

cadáver ao lado daquelle por quem o seu coração estre

mecia e se abrasava! Ousaram resistir ao poder de um

jesuíta, e eil-os ahi punidos de sua temeridade, punidos

por suas próprias mãos! a mais bella e adorada das aman

tes sepultada viva pelo amante idolatrado! Miserrimos!...

Um riso infernal sulcou os lábios denegridos do sce-

lerado, e elle proseguiu com egual sarcasmo:

S2 VNTONIO JOAQUIM DA IIOSA

— E vós também, mísero velho! A vossa morte nao

entrava nos meus cálculos, porque apenas precisava de

vós como instrumento! Mas um homem de mais ou tle

menos não faz falta neste mundo. E, pois, que de própria

vontade quizestes abreviar a vossa jornada pelas escuras

veredas do reino tia morte, seria crueldade oppòr embar

gos aos vossos projectos: portanto, boa viagem, res

peitável ancião!

Depois de pequena pausa proseguiu:

— O desfecho deste drama não sahiu tal como eu

o havia previsto. A morte de Julia veiu inopportunamen-

te: mas é força confessar que o acaso ou antes o demô

nio é melhor dramaturgo do que eu, porque apenas de

lineei um tirania imperfeito e burlesco, entrelaçando a

comedia com a tragédia, a vida tle unia personagem com

a morte de outra, e o acaso completou uma tragédia su

blime, um bello horrível. Vou partir para Roma, e ai do

tresloueado que ousar interceptar-me o caminho nessa

estratla de gloria, tle porvir e tle grandeza que se abre

ante meus passos! Ousaram resistir-me, morreram!

Depois, avançando para os três cadáveres, erguendo

a cabeça da virgem, pousou-a sobre a perna do cadáver

do pae e, attentando o semblante da donzclla ao pallido

clarão da lua, exclamou:

— Como é bella, embora desfigurada pela morte!

O jesuita curvou-se como a serpente maldita de Deus

e imprimiu um beijo impuro nos gélidos lábios da vir

gem !...

A lua horrorizada occultou as pallidas faces nas pre

gas de uma nuvem negra, e o medonho estridor do ca

nhão ethereo, precursor da tempestade e da ira do céu,

reboou pavoroso e ameaçador, quebrando a solidão da

noite como um brado tremendo do gênio do extermí

nio! ..

FIM

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