A História do Cemitério da Paz

Ao visitar os antigos cemitérios, naturalmente as pessoas dirigem o olhar para dentro de si mesmas, a contemplar lembranças e saudades, remorsos e arrependimentos, dúvidas e certezas quanto aos mistérios guardados pela morte.

Tantas vezes marejados por lágrimas, os olhos são incapazes de ver além das dores que transbordam.

No conjunto de sepulturas, todavia, além de restos mortais e saudades, jazem história, arte e poesia dignas de admiração, reverência e preservação, muitas vezes negligenciadas e esquecidas.

O velho Cemitério da Paz é exemplo disso: sua história e seu acervo de túmulos históricos revelam muito dos costumes e da cultura daquela São Roque antiga, que não existe mais.

Conta o Prof. Joaquim da Silveira Santos, no trabalho “São Roque de outrora”, que em 1865 a Câmara Municipal, pela primeira vez, discutiu a necessidade de construção de um cemitério no município que, sem dispor de recursos suficientes à obra, pleiteou-os à Assembleia Provincial, órgão que administrava a Província.

Os cofres públicos da Província de São Paulo, o atual Estado de São Paulo, vazios em razão dos gastos com a Guerra do Paraguai, além da escassez de recursos locais, levaram ao adiamento da votação do projeto até 29.04.1867, quando a construção do cemitério se tornou questão emergencial, para evitar a abertura de novas sepulturas na nave da Igreja Matriz de São Roque, cuja terra estava “em estado de completa podridão, pela aglomeração de corpos”, que sob seu assoalho continuamente apodreciam, pondo em risco a saúde da população.

A exemplo das demais cidades brasileiras e portuguesas, aqui se cultivava a tradição de enterrar defuntos no interior das igrejas católicas, seguindo o costume cristão que, em Portugal, perdurou até 1838, quando o governo, por questões de saúde pública, proibiu sepultamentos nos templos e determinou a construção de cemitérios. A nova prática estendeu-se ao Brasil a partir de 1845.

Impressionados ao saber do estado do solo da Igreja da Matriz, os vereadores, no dia seguinte – 30.04.1867 – aprovaram a compra de terreno para abertura da estrada que levaria ao imóvel destinado ao cemitério e convocaram o vigário da paróquia, Cônego Antônio Paulino Gonçalves Benjamim, para coordenar a construção da necrópole, concedendo-lhe verbas para o início das providências necessárias.

A presença do padre justifica-se porque, durante o Império, o sepultamento era considerado assunto ligado à religião, não à saúde pública e, portanto, tratado pela Igreja Católica.

Os livros da Câmara Municipal e da Igreja não trazem mais informações sobre a construção, mas a tradição oral informa que o trabalho foi realizado por escravos pertencentes ao avô do Prof. Silveira Santos.

A obra, porém, não foi levada a bom termo pelo vigário Benjamim. Conta o Prof. Silveira Santos que sequer a data da sua conclusão é conhecida e não há registro dos sepultamentos inaugurais. Por comentários, sabe-se que Nhá Aninha Piquá, mulher da roça falecida em data desconhecida, foi a primeira pessoa ali enterrada.

O campo santo era um local praticamente abandonado: aberto, sem arruamento, organização e controle, de modo que os sepultamentos eram feitos de qualquer maneira e em qualquer lugar.

O descaso administrativo e religioso do vigário permitiu a ocorrência de um fato grave, que chocou toda a cidade: um cadáver, enterrado em uma cova com apenas um palmo de profundidade, ao exalar dos odores putrefatos atraiu corvos que, revolvendo a pouca terra que o cobria, descobriram-no e devoraram sua carne!

Em 1868, o cemitério ganhou muros e o portão.

Com a substituição do vigário Benjamim pelo padre João Carlos da Cunha, o cemitério recebeu a devida atenção por parte da Igreja: o novo sacerdote procurou conscientizar os fiéis sobre a importância do cemitério e angariou recursos para construir a capela até hoje presente em sua entrada, cuja pedra fundamental foi lançada em 1882, em concorrida cerimônia que teve por orador o Barão de Piratininga.

Proclamada a República, em 1889, a administração dos cemitérios passou às Câmaras Municipais e somente então o cemitério são-roquense foi organizado nas alamedas até hoje vistas em sua parte antiga e, em 1960, recebeu a denominação de “Cemitério da Paz”.

Na próxima semana, a coluna “São-roquices” contará um pouco da poesia e dos túmulos históricos guardados no Cemitério da Paz.

Dedico esta coluna a meu estimado tio e padrinho Raphael Judica, falecido no dia 28 p.p., por mais de 30 anos colunista de O Democrata, assinando o “Noticiário de São João Novo”. Que Deus o tenha!

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