Professor Germano Negrini: missionário do ensino

Estou bem certa de que as antigas ruas de São Roque possuem alguma espécie de memória secreta, eternizadora de momentos, personagens, diálogos e devaneios, organizada em mimosos cofrinhos fechados a sete chaves e acessíveis apenas a quem descobre seu segredo, composto pela poética e nostálgica combinação de imaginação e saudades.

Habita seus compartimentos de maior prestígio, convivendo com outras preciosidades, o Prof. Germano Negrini, que com passos lentos e cadenciados, sempre acompanhados por seus pensamentos a um só tempo eruditos e singelos, cultivou, durante décadas, o costume inquebrantável de, pelo meio da tarde, deslocar-se de sua residência, ao lado da igreja de São Benedito, à Casa Nino, armazém de secos e molhados de propriedade de Antonino Dias Bastos, passando pela Casa Verani para um dedo de prosa com os amigos Francisco e Mário Verani.

Personagem tão singular, que dá nome a uma rua e a uma escola são-roquenses, não poderia escapar à coluna “São-roquices”! Socorri-me, mais uma vez, da gentileza e das lembranças do amigo Chico Verani, discípulo do velho mestre, que colheu inúmeras lições – escolares e de vida – do seu convívio e enfatiza: “O Prof. Germano é digno de ter sua memória preservada, pois, antes de ter sido um emérito professor, foi um homem e um cidadão exemplar.”

Nascido na Itália, em 7 de abril de 1880, Germano chegou menino a São Roque, quando seu pai, Francesco Negrini, veio trabalhar na Brasital.

Germano fez de São Roque sua pátria, devotando-lhe seu amor, seu trabalho e seu empenho, principalmente nas áreas de educação e cultura.

Em suas adolescência e juventude, foi operário da Brasital. Seus sonhos, contudo, ultrapassavam os teares e, tais quais os fios com que tecia os mais variados panos, alongavam-se imensamente, para além dos muros da fábrica, batendo às portas, quase inacessíveis a um jovem de recursos tão modestos, da Escola Normal Oficial de Piracicaba.

São Roque contava apenas com a escola primária e somente famílias abastadas podiam mandar seus filhos estudar fora.

Sensibilizado com o sonho de Germano em ser professor, o Prof. Júlio César de Oliveira – mentor da criação do Grupo Escolar “Dr. Bernardino de Campos” em São Roque e um de seus professores-, orientou-o nos estudos preparatórios aos exames de admissão à Escola Normal.

Na Escola Normal, teve o privilégio de ser aluno de outro são-roquense ilustre, o Prof. Joaquim da Silveira Santos, autor da obra “São Roque de Outrora”.

Após lecionar em Araraquara, Salto e São Paulo, assumiu, em 1932, uma classe no Grupo Escolar “Dr. Bernardino de Campos”, onde havia estudado, aposentando-se em 1942.

Conforme recorda Chico Verani, “ele aposentou-se, mas não abdicou da missão de ensinar: esta exerceu até praticamente o fim de sua vida. Quando eram inúmeras as dificuldades para que os moços da terra estudassem, o Prof. Germano criou e geriu uma escola ‘leiga’ voltada aos jovens de então. Seus ensinamentos foram responsáveis pela educação – no sentido amplo do vocábulo – de muitos rapazes que não tiveram oportunidade de cursar o ginasial e a faculdade. Meu pai, Mário Verani, foi um deles.

Dotado de extrema cultura, lúcida inteligência e profundos conhecimentos literários, Prof. Germano exerceu grande influência na cidade e, notadamente, na Sociedade União Literária, cuja biblioteca dirigiu por anos a fio. Porém, a par de sua cultura multiforme, era, na intimidade, um homem acolhedor, simples e bom, com traços marcantes de honestidade e solidariedade.”

Esses traços e sua respeitável figura de modos comedidos, cabelos e barbas brancas, ternos escuros, gravatas sóbrias e a bengala que dava suporte a um defeito na perna, eram merecedores de reverência e admiração.

Uma passagem bem espelha o respeito que impunha à mocidade são-roquense: “Entre seus hábitos invariáveis, estava a criteriosa leitura diária dos jornais, na sede da ‘Literária’, ao cair da noite. A biblioteca era vizinha da sala de jogos, frequentada cotidianamente por jovens ávidos por disputar partidas de sinuca. Uma regra disciplinar jamais escrita e por todos os moços respeitada, sem qualquer voz de comando, determinava que até o Prof. Germano dobrar o último jornal sobre a mesa, ninguém começava o jogo”, conta Verani.

Tamanha austeridade não impedia o Prof. Germano de ser afável e paciente com as crianças. “Ao lado delas, voltava a ser o admirável professor que nunca deixou de ser”, finaliza Chico Verani.

O Prof. Germano Negrini faleceu em São Roque, em 14 de agosto de 1966, aos 86 anos de idade. Solteiro, viveu como um missionário do ensino, tendo, para cada discípulo, um olhar de mestre e pai.

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