Synésio de Augusta, Synésio de São Roque

- Por onde começar a conversa, quando o assunto é Synésio de Paula Santos?

- Pela trajetória profissional ascendente do aprendiz de sapateiro, desde menino apaixonado por números, autodidata em escrituração contábil que se tornou fundador e sócio-proprietário do escritório de contabilidade de maior projeção na cidade nos anos 1950 e 1960 – “Organização Lex Contábil” – e o primeiro do Estado de São Paulo a mecanizar todo o seu sistema de registro de dados?

- Ou pelo moço idealista que, ao lado de Mário Luiz Campos de Oliveira e outros amigos, fundou a Frente de Mobilização Popular em São Roque, em 1963, para defender fervorosamente o progresso do Brasil por meio das chamadas “reformas de base” – reformas administrativa, agrária, bancária, educacional, tributária e urbana – e apoiar a permanência de João Goulart na Presidência da República, como expressão da legalidade?

- Não seria melhor principiar falando sobre sua participação intensa no “São Paulo Clube”, desde os anos 1940, e seu empenho para que se fundisse à “Sociedade União Literária”, nascendo assim o “São Roque Clube”? Nesse caso, não se poderia deixar passar a oportunidade de se contar quantas vezes ocupou a cadeira de presidente da agremiação – nos bons e maus momentos – e tudo o que fez administrativa, financeira e socialmente, com criatividade, honestidade e sabedoria, para fortalecer a instituição entre seus associados e aproximá-la da comunidade, por meio da participação de não associados aos seus eventos.

- E que tal relembrar um pouquinho, apenas, das centenas de casamentos e ofícios fúnebres que celebrou, sempre enaltecendo o amor, fosse ele conjugal ou divino? Impossível esquecer a recomendação dada aos noivos, para cultivarem o amor tal qual uma planta, de modo que ele não apenas sobreviva, mas floresça de tempos em tempos, sempre renovado e exuberante. E, aos familiares enlutados, também não dispensava falar de amor, desta feita o divino, garantindo que o falecido partia para encontrar-se com Deus, onde viveria o amor eterno, enquanto os que aqui permanecessem seriam sustentados, mesmo em meio a dores e saudades, pela esperança do reencontro na eternidade.

- Não parece mais interessante esmiuçar o tema político, para mostrar, com os seus muitos detalhes, que Synésio – eleito vereador em 1963, pelo Partido Social Trabalhista – foi acusado de ser um dos líderes comunistas de São Roque, teve seu mandato cassado em 22 de abril de 1964 e foi perseguido e preso durante o regime militar?

- Para a conversa render muito, não daria para começar falando sobre sua participação contínua nos movimentos religiosos, como as Festas de Agosto, os Cursilhos das décadas de 1960 e 1970 e o Encontro de Casais com Cristo?

Tudo isso e tudo o mais que Synésio fez e foi para São Roque proporcionam conversas intermináveis, agradáveis e proveitosas. Porém, nada há mais significativo e perfeito para se entabular uma boa prosa sobre Synésio do que seu terno e eterno amor por sua Augusta, a quem mimou, ao longo de quase setenta anos, com afetuosos gestos e palavras, com pitangas e flores colhidas por onde quer que passasse, com quem quer que estivesse, não se importando com o que pudessem pensar ou dizer da sua ternura ou com as nódoas provocadas pelo estalar das frutinhas maduras nos bolsos das suas camisas, como pode testemunhar qualquer pessoa que tenha convivido com esse admirável casal.

Antes do homem de destaque na vida profissional, social, política e religiosa, Synésio foi um grande homem no seio de sua família, amado e respeitado por sua esposa, seus irmãos, filhos, netos, sobrinhos e por todos os amigos – sempre tratados como irmãos e filhos – que tiveram o privilégio de frequentar sua casa e desfrutar de sua companhia carismática e incondicionalmente solidária.

Synésio de Paula Santos foi um homem de múltiplas atividades, múltiplos engajamentos e múltiplos sentimentos. Creio que seu segredo para vivenciar tudo isso tão plenamente era jamais perder o entusiasmo, palavra esta cujo significado ele sempre insistia em explicar: “ser movido por Deus”.

Seu entusiasmo para com Deus, o ser humano, as causas justas e São Roque fizeram dele um semeador cujos frutos sua família, seus amigos e a cidade colherão interminavelmente, mesmo que em mais silêncio, sem as suas contagiantes gargalhadas.

Descanse em paz, meu querido amigo, leitor e incentivador Synésio de Paula Santos, ou melhor, Synésio de Augusta, Synésio de São Roque e das “são-roquices” e, agora, Synésio do céu.

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