Uma ponte para o futuro

Quem passa pela ponte da avenida João Pessoa – e não viveu na São Roque dos anos 1950/1960 – não imagina o quanto sua construção representou para o progresso da cidade.

Incorporado ao cenário urbano, o viaduto inaugurado em 1961, se hoje não causa qualquer admiração, é tido por muitas pessoas como a maior e mais revolucionária obra de engenharia produzida em São Roque no século XX.

Em seu lugar havia uma ponte de pedra e madeira, mais estreita, construída em 1919, projetada para suportar o tráfego de pessoas e veículos de tração animal, além dos poucos automóveis que circulavam pela cidade, ligando as adjacências da Praça da Matriz à Estação Ferroviária e à saída para Mairinque e Sorocaba pela Estrada São Paulo-Paraná, posteriormente denominada Rodovia Raposo Tavares.

A inauguração do prédio onde funciona até hoje a escola estadual “Horácio Manley Lane”, no final da década de 1950, intensificou sensivelmente o movimento naquela parte da cidade e exigiu melhoramentos em seu entorno e em suas vias de acesso.

Eleito prefeito de São Roque em 1958, o jovem engenheiro Mário Luiz Campos de Oliveira contemplou a cidade sob nova e arrojada ótica, preparando-a para o futuro. Um de seus projetos mais avançados foi substituir a ponte velha por um viaduto moderno.

Assim como outros moradores da av. João Pessoa, João Carlos Infanti acompanhou de perto a demolição da ponte primitiva e a construção da atual: “O trabalho dos operários era intenso e surpreendente para a cidade, que jamais havia visto uma obra tão grande e difícil de ser executada. Hoje construir uma ponte é simples, pois há máquinas que realizam todo tipo de serviço e peças pré-moldadas, mas naquele tempo, erguer uma estrutura de madeira e ferro naquele buracão e depois concretá-la foi fenomenal! Reputo essa ponte como a mais imponente obra de engenharia que São Roque viu no século passado. Lembro-me de ver o prefeito Mário Luiz visitar a obra várias vezes ao dia e até ajudar na borrifação do piche, quando a avenida foi asfaltada.”

O engenheiro Luís Guilherme Campos de Oliveira, filho do ex-prefeito Mário Luiz, enfatiza: “uma obra tão importante e cara como a construção do viaduto da av. João Pessoa somente foi possível graças ao excelente relacionamento que meu pai mantinha com o governo do Estado de São Paulo. Plínio de Arruda Sampaio, secretário do governador Carvalho Pinto, intermediou o pedido de verba e São Roque foi contemplada com os recursos que custearam a edificação.”

A construção e a inauguração da ponte também ficaram marcadas na memória do menino José Manoel Ribeiro Lopes: “morava na Praça dos Expedicionários e assim acompanhei de perto o trabalho dos homens e das máquinas. Era impressionante! Uma obra de primeiro mundo, que imprimiu um aspecto progressista a São Roque! Acompanhei tudo, dos alicerces à inauguração do viaduto, prestigiada pessoalmente pelo governador Carvalho Pinto.”

O acesso existente entre a atual av. Antonino Dias Bastos e a av. João Pessoa, à época da velha ponte e nos primeiros anos após a inauguração do viaduto, era feito por uma escada esculpida no barranco.

Anos mais tarde, a prefeitura construiu a escada de alvenaria para ligar as duas avenidas.

O que a escadaria tem de útil, todavia, hoje tem de perigosa. Seu aspecto mostra de modo claro tratar-se de uma obra tecnicamente divorciada da ponte.

Enquanto o viaduto segue sólido e inabalável, qualquer observador leigo constata a deformação sofrida pela escada ao longo do tempo. Os degraus não têm mais simetria e, em sua maioria partidos ao meio, tortos e com grandes rachaduras, em todos os lances, proporcionam aos pedestres desagradável sensação de desconforto e insegurança.

“A escada parece estar cedendo, muitos degraus estão afundando no meio, além de haver rachaduras tanto neles quanto nas laterais que apoiam o corrimão. Dá medo cortar caminho por ali”, assegura Adriana Pezzota da Cruz, que utiliza a escada regularmente desde os anos 1980.

Os usuários da escada – dezenas, por vezes centenas ao dia – são unânimes em reclamar do seu mau estado de conservação que, somado à presença regular de desocupados e à precariedade da sua iluminação, tornam o local inseguro.

Governar significa construir e preservar, razão pela qual é importante a administração municipal, periodicamente, enviar seus técnicos para avaliar a estrutura e a conservação do patrimônio público urbano.

A escadaria que une as avenidas João Pessoa e Antonino Dias Bastos, por sua importância histórica e sua utilidade, merece conservação contínua e responsável.

Palavras-chave

PUBLICIDADE

Detalhes

Download

PUBLICIDADE